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O exílio de JK, a 60 km de Brasília

Fazendinha em Luziânia que pertenceu ao presidente preserva toda a sua simpatia e charme mineiro

O exílio de JK, a 60 km de Brasília
A Fazendinha JK é o único projeto de casa rural de Oscar Niemeyer Crédito: Rudolfo Lago - Correio da Manhã

Quando chegava a noite, o ex-presidente Juscelino Kubitschek subia ao ponto mais alto da sua fazenda em Luziânia e de lá ficava olhando as luzes do Aeroporto de Brasília. Aquele era o contato mais próximo que a ditadura militar permitia a ele da sua principal criação: a capital federal no Palácio Central. O regime dos generais proibira JK de pisar em Brasília.

No dia 22 de agosto, a morte de Juscelino Kubitschek completará 50 anos. E chegará a essa data de maneira controversa. Oficialmente, JK morreu em um acidente automobilístico na Via Dutra, a estrada que liga São Paulo ao Rio de Janeiro. Seu carro, um Opala, conduzido por seu motorista, Geraldo Ribeiro, teria sido atingido na traseira por um ônibus. Teria perdido, então, o controle, atravessado para o outro lado da pista e colidido de frente com um caminhão.

Tal versão, no entanto, está agora sendo contestada. Relatório de cinco mil páginas elaborado por Maria Cecília Adão para a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMPD) volta a levantar uma polêmia que existe desde aquele 22 de agosto de 1976. Não teria sido um acidente. Juscelino teria sido assassinado pela ditadura militar. Os detalhes do relatório de Maria Cecilia não são ainda conhecidos. E precisarão ainda ser analisados pelos demais integrantes da comissão. Mas toda a história da morte de um dos maiores presidentes da história brasileira pode ser modificada profundamente.

Refúgio tranquilo

Toda essa polêmica, no entanto, fica longe do silêncio interrompido somente pelo canto dos passarinhos da Fazendinha JK, o lugar de onde Juscelino apreciava de longe a sua criação. Ali, essa parte importante da história brasileira vem sendo cuidadosamente preservada pelo casal Antônio Henrique e Rosane Servo.

Historiadores, os dois são hoje os proprietários da fazenda que fica no município de Luziânia, em Goiás. Ali, eles se esmeram em preservar e contar a história do local, mantido exatamente da mesma forma, com todos os móveis e pertences que foram de JK e de sua esposa, Sarah Kubtischek.

Juscelino comprou a fazenda Santo Anônio da Boa Vista, a Fazendinha JK, no início dos anos 1970, quando já era um ex-presidente perseguido pela ditadura, com os direitos políticos cassados. Teve a ajuda dos amigos para adquirir os 27 mil alqueires goianos (cerca de 130 mil hectares) da propriedade e ali construir a sua casa. Um dos que o ajudou na compra teria sido Adolfo Bloch, dono da editora Bloch, que editava a revista Manchete.

Na construção, obteve também a ajuda dos amigos. O projeto paisagístico é de Roberto Burle Marx, que criou para o ambiente uma mescla de natureza. Há a vegetação de Mata Atlântica das Minas Gerais de JK associada ao Cerrado do Planalto Central, que termina em um lago com uma faixa de areia branca imitando a orla do Rio de Janeiro.

A casa é o único projeto de Oscar Niemeyer para uma residência rural. E Niemeyer, embora tenha utilizado o seu material preferido, o concreto, ali não projetou suas famosas curvas modernistas. A construção remete às casas de fazenda e coloniais da infância de Juscelino em Diamantina. Com um amplo espaço de varanda e lanternas. Tudo em azul e branco. A parte interna combina espaços mais íntimos com uma ampla sala com pé direito alto, onde há uma biblioteca com mais de dois mil livros, muitos deles com dedicatórias de escritores como Jorge Amado e Clarice Lispector e anotações do próprio Juscelino.

A compra

Com JK morto em 1976, a casa passou a ser menos frequentada por sua viúva, Sarah. Em 1984, ela resolveu colocar a propriedade à venda. O que interessou ao empresário e ex-deputado paranaense Lázaro Servo. Ele procurou, então, Sarah em seu apartamento no Rio de Janeiro e iniciou a negociação.

Desde o início, Lázaro Servo sentiu a importância histórica do local. E consolidou sua intenção de preservá-lo intacto. Propôs, então, a Sarah Kubitschek comprar com tudo o que houvesse dentro: móveis, utensílios, livros, objetos pessoais. “Mas o que você irá fazer com isso?”, perguntou a viúva de JK. “Vou guardar”, respondeu Lázaro.

Sarah, então, fez novo oferecimento. “Então, vamos descer na garagem”. Lá estava estacionado um reluzente automóvel Mercedes-Benz preto, ano 1963, com bancos de couro caramelo e volante de marfim. Placa GH 1133 da cidade de Juscelino Kubitschek, em Minas Gerais. O carro tinha sido adquirido com a intenção de ser leiloado para custear as eleições presidenciais de 1965. Como não houve tal eleição, por conta da ditadura, o carro ficou com JK. Poderia entrar no negócio.

Sarah, porém, àquela altura já tinha negociado a fazenda com outra pessoa. Mas deu a Lázaro Servo o cartão de seu advogado, que estava cuidando da transação. Lázaro procurou o advogado. O negócio estava emperrado porque envolvia o recebimento de precatórios, que não eram liberados. “Se vocês aceitarem desfazer o negócio, eu compro a fazenda à vista”, propôs o empresário e ex-deputado. E assim foi feito.

Visita

Lázaro Servo morreu em 1999, e a Fazendinha ficou, então, mantida por seu filho, Antônio Henrique, e sua esposa Rosane. E está aberta à visitação.

O casal mantém uma visitação guiada à fazenda com três modelos. É possível somente acompanhar a visita, na qual Antônio Henrique e Rosane contam detalhes da propriedade e de seus pertences. É possível ainda adicionar à visita um delicioso café da manhã colonial bem mineiro, onde tudo é produzido na própria fazenda. Ou há ainda um modelo de day use, que inclui um almoço. É com os recursos dos ingressos que o casal mantém a Fazendinha JK.

Apesar de todos os cuidados, a fazendinha precisa de alguma restauração. Há papeis de parede descascados e outras marcas do tempo. E, para manter a fazenda intacta do seu ponto de vista histórico, qualquer reforma precisa ser feita com muito cuidado.

O Correio da Manhã conversou sobre hipóteses com o ex-presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) Leandro Grass. Que explicou que, por ser propriedade privada, a fazendinha não poderia ser restaurada pelo Iphan. Mas ela pode receber apoio de empresas, que podem investir e receber benefícios pela Lei Rouanet ou outros meios. Fica, então, a pergunta: não interessaria a nenhum empresário fazer esse investimento em parte tão importante da história brasileira? Qualquer que seja a resposta, nos 50 anos da morte de JK, vale a visita à Fazendinha JK!