Por Gabriel Rattes
Henrique Avancini nunca foi um atleta comum. Ao longo de mais de uma década no topo do mountain bike mundial, construiu uma trajetória inédita para o ciclismo brasileiro — com títulos globais, protagonismo em Copas do Mundo e uma influência que ultrapassou as pistas. Quando anunciou sua aposentadoria do MTB, em 2023, parecia encerrar um ciclo completo, daqueles difíceis de superar.
Mas Avancini nunca foi sobre caminhos previsíveis. Dezoito meses após deixar as competições no mountain bike, o maior nome da história do ciclismo brasileiro iniciou uma nova etapa, agora, no ciclismo de estrada. E bastaram 14 meses desde esse retorno para que ele voltasse ao topo — com a vitória no Tour of the Gila 2026, nos Estados Unidos.
Da despedida no auge a um novo começo
A aposentadoria anunciada ainda em 2023 teve contornos raros no esporte: Avancini decidiu parar no topo. Poucas semanas antes, havia conquistado o bicampeonato mundial de maratona cross-country, consolidando uma carreira marcada por pioneirismo e consistência. Com o título, Avancini era o principal nome brasileiro cogitado para representar o país nas Olimpíadas de Paris, em 2024.
No momento do anúncio de aposentadoria, revelou que a decisão veio de um senso de realização, e não de esgotamento. "Quando eu me aposentei no mountain bike, eu me aposentei de verdade. Nos meses seguintes foi quando eu cheguei a considerar a possibilidade de resgatar esse sonho antigo que até então tinha ficado adormecido", contou em entrevista exclusiva ao Correio Petropolitano.
Filho de Ruy Avancini, Henrique cresceu dentro do universo da bicicleta e construiu, peça por peça, uma trajetória que redefiniu o ciclismo nacional. Foram 23 títulos brasileiros, conquistas em Copas do Mundo e o feito histórico de liderar o ranking mundial — algo inédito para um atleta do país.
A despedida, no entanto, não significou afastamento. Em 2024, assumiu um novo papel como treinador e gestor da equipe Caloi / Henrique Avancini Racing. No fim de 2025, encerrou o ciclo da equipe com a Caloi e iniciou, em 2026, uma nova fase no ciclismo de estrada. O petropolitano passou a integrar a equipe Localiza Meoo Swift Pro Cycling como um dos líderes do projeto.
O retorno e a reinvenção no asfalto
A volta às competições profissionais veio com uma mudança significativa: o ciclismo de estrada. Modalidade com dinâmicas distintas, exigências específicas e um cenário competitivo diferente daquele que o consagrou. A adaptação, porém, foi rápida.
No Tour of the Gila 2026, uma das provas mais tradicionais do calendário norte-americano, Avancini mostrou que ainda carrega o instinto competitivo que o colocou entre os melhores do mundo. Em cinco dias de disputa, enfrentou etapas que exigiam versatilidade total: contra-relógio, alta montanha e circuitos urbanos.
"Me senti incomodado, nervoso, apreensivo para uma prova. Acho que depois de conquistar títulos expressivos é difícil voltar a sentir aquela tensão. E isso é bom, porque é o que faz o atleta extrair mais do corpo e da mente", enfatizou Avancini.
Mesmo com pouco tempo de adaptação à nova bike e às características da modalidade, entregou uma performance consistente, assumindo a liderança apenas na etapa final para garantir o título. "São pouquíssimos atletas que venceram classificações gerais na história do ciclismo brasileiro. É um resultado muito expressivo não só para mim, mas para a história do ciclismo brasileiro".
Legado que segue em movimento
Se no mountain bike Avancini acumulou conquistas históricas, no ciclismo de estrada cada resultado carrega um simbolismo diferente. A vitória no Gila não representa apenas um título, mas a validação de uma reinvenção. "Minha carreira no mountain bike sempre foi muito movida ao objetivo de fazer história e causar impacto. Eu ganhava uma Copa do Mundo e já estava pensando na próxima. Hoje eu tenho um pouco mais de equilíbrio nesse aspecto de buscar conquistas e trazer relevância para o esporte, mas também de curtir um pouco mais o processo", afirmou.
Entre o barro e o asfalto, Avancini mantém uma essência: a de transformar o ciclismo por onde passa. Seja como atleta, mentor ou agora novamente competidor em uma nova frente, sua trajetória continua em evolução. "Causar efeito na comunidade, em outras pessoas, em outras vidas e no esporte sempre foi a minha força motriz. Esse efeito sempre foi o que mais me motivou e impulsionou", finalizou Avança, como é popularmente chamado.
O retorno às competições profissionais não apaga o legado construído no MTB — pelo contrário, amplia sua dimensão.