Relatório muda história do país e conclui que JK foi morto pela ditadura militar

Quase 50 anos depois, documento aprovado pela Comissão sobre Mortos e Desaparecidos contesta versão oficial do acidente na Via Dutra, aponta 37 irregularidades na investigação e inocenta motorista de ônibus

Por Andre Souza

Morte de JK: Comissão apontou 37 irregularidades nas investigações conduzidas durante a ditadura

Quase 50 anos depois da morte de Juscelino Kubitschek, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) aprovou nesta sexta-feira (29) um relatório que conclui que o ex-presidente foi assassinado pela ditadura militar — e não vítima de um simples acidente de carro, como sustentava a versão oficial.

O documento, com 1.316 páginas, foi elaborado pela historiadora Maria Cecília Adão. A decisão representa uma reviravolta em um dos casos mais polêmicos do período militar no Brasil.

JK morreu em 22 de agosto de 1976, na Via Dutra, quando o carro em que estava saiu da pista e colidiu com uma carreta. Durante décadas, o caso foi tratado como acidente automobilístico. Mas novas análises apontaram inconsistências na investigação da época e concluíram que o ex-presidente foi vítima de atentado político.

O relatório foi aprovado por seis votos favoráveis e uma abstenção. O integrante que se absteve afirmou que havia ingressado recentemente no colegiado e não acompanhou toda a tramitação do caso. O documento também foi apresentado em coletiva organizada pelo Ministério Público Federal (MPF), em São Paulo, com participação da presidente da CEMDP, Eugênia Augusta Gonzaga, da relatora Maria Cecília Adão e da deputada federal Natália Bonavides(PT/RN).

A investigação afirma que JK era tratado como ameaça permanente pelos militares desde o golpe de 1964. O relatório cita perseguições, cassação, monitoramento, campanhas de desmoralização e ameaças sofridas pelo ex-presidente. O caso também é relacionado à Operação Condor, articulação repressiva entre ditaduras sul-americanas para perseguir opositores políticos.

Segundo a comissão, documentos e depoimentos indicam proximidade entre o então chefe do Serviço Nacional de Informações (SNI), João Figueiredo, e o chefe da polícia secreta chilena, Manuel Contreras. O relatório aponta registros que indicariam discussões sobre a eliminação de adversários políticos considerados ameaça à estabilidade do Cone Sul.

Na análise sobre a colisão na Via Dutra, a comissão aponta 37 irregularidades nas investigações conduzidas durante a ditadura, entre elas adulteração de provas, desaparecimento de documentos, manipulação de testemunhas, ausência de exames toxicológicos e falhas periciais. A principal conclusão é que a batida de um ônibus na traseira do carro de JK, versão apresentada oficialmente à época, nunca ocorreu. Com isso, o relatório afasta a responsabilidade atribuída ao motorista Josias Oliveira.

Mortos pela Ditadura

Criada em 1995, a CEMDP já reconheceu 434 mortos e desaparecidos políticos no Brasil, muitos deles vítimas de sequestros, torturas, execuções e mortes registradas oficialmente como acidentes ou suicídios. O relatório também prevê a retificação da certidão de óbito de JK e pode provocar revisões futuras em materiais didáticos e discussões sobre reparações às famílias das vítimas da repressão política.

LEIA O RELATÓRIO COMPLETO APROVADO PELA COMISSÃO

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