Em 2025, 5,6 mil empresas pediram recuperação judicial
Mecanismo jurídico ganha espaço em casos de crise econômica. Veja como negociar
Por Martha Imenes
O ano de 2025 marcou um recorde histórico no Brasil: 5,6 mil empresas entraram em recuperação judicial, segundo dados do Monitor RGF, plataforma que compila dados sobre a saúde financeira de empresas brasileiras. O número representa um aumento de mais de 35% em relação ao ano anterior e acendeu um alerta para 2026. Juros elevados, crédito restrito e decisões empresariais adiadas foram apontados como fatores centrais para essa explosão de pedidos.
Entre as companhias que recorreram ao mecanismo estão nomes conhecidos da bolsa de valores brasileira (B3). A Bombril, tradicional fabricante de produtos de limpeza, entrou em recuperação judicial em fevereiro de 2025. Outras gigantes já vinham enfrentando o mesmo processo, como Americanas, Oi, Gol Linhas Aéreas e AgroGalaxy, todas listadas na B3.
Esses casos mostram que a crise não atinge apenas pequenas e médias empresas, mas também grandes corporações com forte presença no mercado. A recuperação judicial, nesses cenários, torna-se uma tentativa de renegociar dívidas bilionárias e preservar milhares de empregos.
Especialistas alertam que o recorde de pedidos em 2025 reflete um ambiente econômico desafiador e pode se repetir em 2026, caso não haja melhora nas condições de crédito e redução dos juros. Para investidores e credores, cada novo pedido é um sinal de risco, mas também uma oportunidade de renegociação.
Prevista na Lei 11.101/2005
Criada para preservar atividades produtivas viáveis, proteger empregos e organizar a relação entre empresas e credores, a recuperação judicial, prevista na Lei nº 11.101/2005, deixou de ser pouco utilizada e passou a ser vista como um dos principais mecanismos de reorganização em tempos de crise, avalia Marco Aurélio Mestre Medeiros, advogado e sócio-fundador do escritório Mestre Medeiros Advogados Associados.
"Nos últimos anos, o ambiente de negócios no país tem sido pressionado por crédito caro, margens reduzidas e inadimplência elevada. Somam-se a isso fatores externos, como conflitos armados, tensões políticas e inflação global, que afetam cadeias produtivas e o comércio internacional. Nesse contexto, cada vez mais empresas recorrem à recuperação judicial como alternativa para reestruturação de dívidas e manutenção de suas operações", explica o especialista.
Ele adverte que a recuperação judicial não deve ser confundida com falência: "Ao contrário, trata-se de um mecanismo de preservação econômica e social, que suspende execuções individuais e permite negociações coletivas sob supervisão judicial. O processo cria condições para revisão de dívidas, adequação de prazos e reconstrução da confiança, muitas vezes garantindo a continuidade de negócios fundamentais para comunidades inteiras".
Segundo Medeiros, a expectativa é de que, em 2026, o instrumento continue sendo decisivo para a estabilização do ambiente empresarial mas, para que cumpra seu papel, é necessária uma gestão técnica rigorosa, com transparência, governança, planejamento financeiro sólido e comunicação clara com credores. "Quando bem conduzida, a recuperação judicial permite que empresas retomem competitividade e reconstruam futuro; quando ignorada ou acionada tardiamente, a alternativa costuma ser a liquidação, com impactos sociais e econômicos mais severos", acrescenta.
O desafio agora, pontua Medeiros, é consolidar a cultura de que planejamento jurídico preventivo e reorganização estratégica são parte da boa gestão empresarial. "Preservar empresas viáveis significa preservar empregos, arrecadação e desenvolvimento".
