Sindicatos de servidores do INSS rebatem críticas de parlamentar
Teletrabalho da autarquia foi alvo de reclamações do deputado Paulo Pimenta
Por Martha Imenes
As críticas do deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) sobre o trabalho remoto de servidores do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que atingiria 70% do funcionalismo, provocou reações de sindicatos, que rebatem as afirmações do parlamentar.
O Sindicato dos Trabalhadores Federais em Saúde, Trabalho e Previdência Social no Rio Grande do Sul (Sindisprev-RS), por exemplo, afirmou que não procede a informação de que cerca de 70% dos funcionários do instituto atuam em regime remoto.
Dados oficiais do próprio INSS indicam que o percentual médio de servidores em teletrabalho é de aproximadamente 40%, número considerado significativamente inferior ao que vinha sendo divulgado.
Na avaliação do Sindisprev-RS, a divulgação de percentuais imprecisos passa a impressão de que os trabalhadores do INSS são responsáveis pelos problemas, como a fila de 3 milhões de segurados aguardando por aposentadorias e outros benefícios.
"A distorção desses dados contribui para desinformar a sociedade e reforçar uma narrativa que tenta transferir aos servidores a responsabilidade por problemas que são estruturais, históricos e amplamente documentados", afirmou o sindicato, em nota.
A entidade aponta que as dificuldades enfrentadas pelo INSS estão relacionadas a fatores estruturais, como déficit de pessoal, limitações tecnológicas e falta de investimentos ao longo dos anos, e não ao regime de trabalho adotado pelos servidores.
Já o Sindicato dos Trabalhadores do Seguro Social e Previdência (Sinssp-BR) rebateu as declarações do deputado, que atribuiu os problemas no atendimento do INSS à suposta recusa de servidores em cumprir jornada presencial.
Segundo o sindicato, a fala ignora a realidade enfrentada pela categoria, marcada por sobrecarga de trabalho, metas elevadas e sistemas ineficientes. O teletrabalho, afirma a entidade, é uma modalidade essencial para reduzir as filas virtuais e garantir a análise de benefícios, já que os servidores que atuam remotamente cumprem metas 30% superiores às do regime presencial e arcam com os custos de sua própria estrutura de trabalho.
O Sinssp-BR destaca ainda que muitas agências não possuem condições adequadas para receber servidores. Reformas recentes reduziram guichês e espaços de atendimento, enquanto parte dos equipamentos de informática e da infraestrutura de internet encontra-se defasada, comprometendo a agilidade dos processos.
De acordo com o sindicato, sem o teletrabalho as filas virtuais seriam ainda maiores, já que a estrutura física das agências não comporta a demanda atual. "Declarações como essa apenas aprofundam a desvalorização do serviço público e ignoram o esforço real de uma categoria que segue trabalhando além dos limites para assegurar direitos da população brasileira", afirma a nota.
Para o Sinssp-BR, valorizar os servidores é condição indispensável para reduzir filas, melhorar o atendimento e fortalecer o INSS — caminho oposto ao da desinformação e da culpabilização de quem está na linha de frente.
Relembre
No final de janeiro, o deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) disse durante uma entrevista que a situação enfrentada por aposentados e segurados do INSS é "inaceitável", especialmente diante da manutenção do home office por grande parte dos servidores desde 2020. Pimenta afirmou que cerca de 70% dos funcionários do instituto seguem trabalhando remotamente e resistem até mesmo ao modelo semipresencial, o que, para ele, compromete o funcionamento do órgão.
O deputado responsabiliza a falta de controle e de liderança da gestão do INSS pelo atendimento precário, afirmando que os aposentados estão sendo "massacrados" enquanto a corporação se protege.
De acordo com Pimenta, o problema não está na falta de pessoal, como alegam servidores, mas na recusa de parte deles em cumprir jornada presencial. O deputado relatou que até propostas de mutirões para reduzir a fila de pedidos de aposentadoria e benefícios por incapacidade esbarram na resistência à volta ao trabalho. Ele denunciou ainda que há servidores que não residem mais na cidade de lotação, incluindo casos de funcionários morando no exterior.
O parlamentar também criticou o fechamento de agências e o funcionamento de unidades com apenas um servidor, além de considerar insuficientes as explicações da presidência do INSS, que atribuiu os problemas ao sistema da Dataprev.
Pimenta destacou ainda a falta de peritos médicos no Sul e no Sudeste, após a nomeação de novos profissionais majoritariamente para as regiões Norte e Nordeste, e afirmou que não aceitará "desculpas esfarrapadas" para o mau atendimento prestado à população.
Principais pontos
de atrito
Nota de repúdio: o SindisprevRS manifestou "profunda indignação" com falas do deputado, que na visão dos sindicalistas, responsabilizam os trabalhadores pelo sucateamento do órgão.
Críticas ao atendimento: servidores rebateram a afirmação de Pimenta de que o problema no INSS não seria falta de pessoal, mas sim a recusa de parte da categoria em cumprir a jornada.
Sucateamento: entidades da categoria apontam que o INSS sofre com sucateamento, o que gera as filas e instabilidade no atendimento, contrariando a narrativa de que a responsabilidade seria dos servidores.
Conflito de narrativas na CPMI: as críticas ocorrem em um contexto onde Paulo Pimenta atua na CPMI do INSS, focando em descontos indevidos por entidades fantasmas no governo anterior, enquanto representantes dos servidores defendem a estrutura da autarquia.
