Metodologia de cálculo do PIB vira pivô de crise institucional
Gestão do IBGE promove exonerações. Sindicato denuncia 'caça às bruxas'
A mudança na metodologia de pesquisa do Produto Interno Bruto (PIB) no Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) gerou uma crise entre a administração de Márcio Pochmann e servidores, alguns coordenadores - contrários à gestão -, foram exonerados. A informação é do Sindicato Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras do IBGE (ASSIBGE).
As medidas de Pochmann colocam em "risco a soberania geoestatística brasileira", segundo o sindicato. "Essa medida foi implementada sem consulta aos quadros técnicos, à comunidade científica e à sociedade civil, configurando um precedente perigoso para a interferência de interesses privados no sistema geoestatístico nacional", diz a carta.
Segundo o IBGE, a gestão busca atualizar as estatísticas para o cálculo do Produto Interno Bruto (PIB) incluindo mudanças na economia ligadas, por exemplo, às transformações digitais. Essa mudança teria sido mais um dos pivôs da crise institucional que se arrasta há, basicamente, um ano, quando servidores denunciaram o uso político da 32ª edição do "Brasil em Números 2024".
Na época, funcionários do IBGE acusaram a direção de incluir um texto com características de "propaganda política" no prefácio da edição. A carta-denúncia aponta ainda que as considerações técnicas foram contrárias ao procedimento de incluir textos de cunho ideológico, o que gerou tensão interna e acusações de assédio moral e retaliação.
Demissões
A primeira do alto escalão a ser demitida foi a coordenadora de Contas Nacionais, Rebeca Palis, ocorrida em 19 de janeiro. Em seguida, o vice de Rebeca, Cristiano Martins, também foi exonerado. Na semana passada foi a vez de Claudia Dionísio, gerente de Contas Nacionais Trimestrais, e Amanda Tavares, gerente substituta, saírem.
E nesta quarta-feira (28), a gestão mirou a comunicação do órgão com a exoneração da gerente de Sistematização de Conteúdos Informacionais (Gecoi), Ana Raquel Gomes. A decisão ainda deve ser formalizada no Diário Oficial.
Após exoneração da chefia da Gecoi, a equipe de comunicação será transferida para o IBGE em Parada de Lucas, na Zona Norte do Rio, área reconhecidamente de risco. De acordo com o sindicato, o lugar não possui condições adequadas para funcionamento.
"Esse caso se soma a diversas outras exonerações e remoções arbitrárias promovidas pela gestão Márcio Pochmann, que vem conduzindo uma 'caça às bruxas' contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE", avalia o sindicato.
Uso político
Ana Raquel e sua equipe protagonizaram embates públicos com a gestão Pochmann no episódio da denúncia do uso político da publicação "Brasil em Números 2024", informa a entidade sindical.
De acordo o sindicato, a direção do instituto recebeu e aprovou o material, que citava ações da gestão estadual em áreas como habitação e educação.
"O Governo do Estado de Pernambuco tem resolvido esse déficit (habitacional) com as ações do Programa Morar Bem, a maior política habitacional da história do estado", dizia trecho do prefácio, que levava a assinatura da governadora Raquel Lyra (PSD).
O que diz o instituto
O IBGE, no entanto, diz que a mudança no cargo de coordenador de contas nacionais está sendo realizada de forma dialogada. "Seguimos com o cronograma de transição entre a atual e o futuro coordenador, garantindo o cumprimento integral do plano de trabalho e o pleno cumprimento do cronograma de divulgações para o ano de 2026", afirma o instituto.
