Reforma não deve ser votada antes das eleições de outubro

Perda de apoio político, com retirada de assinaturas da PEC, pode travar tramitação

Por Martha Imenes

Projeto da reforma administrativa foi protocolada na Câmara no dia 28 de outubro

A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 38/2025, que define a reforma administrativa do serviço público brasileiro, conforme antecipado pelo Correio da Manhã na edição de 13 de novembro, vem perdendo apoio político e pode não acontecer da forma prevista pelo deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ), relator do Grupo de Trabalho que gestou a proposta protocolada em 28 de outubro. 

O texto já enfrenta uma debandada de parlamentares. Até o momento, 20 deputados retiraram suas assinaturas do documento, informa a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef). 

De acordo com a confederação, as alterações não alcançam sequer 1% dos mais de 12 milhões de servidores e servidoras federais, estaduais e municipais do país. Na prática, a PEC - aprovada em comissão especial da Câmara dos Deputados em 2025 - atinge diretamente os direitos de servidores e da população, ameaçando a manutenção dos serviços públicos e abrindo espaço para a privatização de áreas essenciais, hoje garantidas pela Constituição de 1988.

Um ponto destacado pelo presidente da Associação dos Funcionários Públicos do Estado de São Paulo (AFPESP), Artur Marques, é a incerteza do avanço da proposta em ano eleitoral.

"Cabe acentuar que o concurso público, que garante o mérito, e a estabilidade, que preserva a independência técnica dos servidores, são instrumentos do Estado democrático de Direito", afirma.

O presidente da associação ressalta que "qualquer reforma administrativa digna desse nome deve buscar modernização com valorização. Deve estimular o mérito sem eliminar a estabilidade; promover formação e desenvolvimento sem destruir carreiras; corrigir distorções sem extinguir direitos."

Na Câmara

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), tinha expectativa de aprovar a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da reforma administrativa ainda em 2025. O que não se cumpriu. Diante da perda de apoio a PEC 38 já é considerada improvável até mesmo neste ano antes das eleições, que ocorre em outubro.

Ao longo do último ano, o presidente da Casa chegou a ajustar o discurso. Inicialmente confiante na tramitação rápida da proposta, ele passou a admitir, em dezembro, que o tema enfrentaria resistência.

A reforma administrativa envolve mudanças nas regras do funcionalismo público e enfrenta oposição de servidores e de parte do Parlamento, o que amplia a dificuldade de construção de consenso em um ambiente pré-eleitoral.

Especula-se que Motta terá cerca de seis meses para articular e aprovar propostas na Câmara. Depois desse período, o Congresso tende a se esvaziar, segundo líderes do Centão, com parlamentares nos próprios estados para a campanha eleitoral. Nesse cenário, eles consideram difícil a aprovação de um texto com forte impacto na economia.