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Uma batalha íntima na primeira pessoa

Dramaturgia percorre os significados históricos e culturais atribuídos ao peito feminino, da iconografia religiosa e das amas de leite no Brasil colonial à explosão dos implantes de silicone

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Há cerca de um ano, Luiza Mariani arrebatava crítica e plateias nos festivais de cinema mais importantes do país em seu desempenho em "Cyclone", que lhe valeu a láurea de Melhor Interpretação no Fest Aruanda. A produção, que pode ser alugada no YouTube e na Apple TV, representou um momento de consagração profissional, mas entrou em colisão com a batalha mais feroz de sua estrela, tendo como algoz aquela palavrinha mau caráter com a letra c, que só se revela em biopsias e cresce em metástase.

Essa guerra se declara para o público na primeira pessoa de uma atriz singular no espetáculo "O Que Meu Peito Carrega Sobre Mim", solo que ocupa o Teatro Poeira, em Botafogo, a partir deste fim de semana, sob a direção de Bia Lessa. A partir de uma trajetória marcada por cirurgias estéticas, maternidade, dificuldades na amamentação, diagnóstico de câncer e mastectomia dupla, Luiza transforma uma história íntima em reflexão sobre as expectativas sociais que, ao longo dos séculos, moldaram a relação das mulheres com os próprios seios. Segue em cartaz até 20 de dezembro e promete marcar a cena teatral carioca.

"Passei a vida negociando com o meu peito. Uma insatisfação tremenda. Quando ele virou doença, a negociação acabou. Não havia mais o que barganhar", lembra Luiza, em e-mail ao Correio da Manhã. "O enfrentamento não teve nada de heroico. Foi feito de segundas-feiras banais, exames, medo, coragem, crianças atrasadas para a escola. Foram quatro cirurgias, duas estéticas e duas oncológicas. Quando fui atrás da palavra 'peito', descobri que, além de enfrentamento, ela também carrega proteção, afeto, dor, saudade".

O diagnóstico de um carcinoma na mama esquerda, em novembro de 2024, levou Luiza a escrever sobre o corpo e as sucessivas transformações a que foi submetido. Em fevereiro de 2025, a atriz foi operada. A experiência deu origem ao espetáculo pilotado por Bia Lessa, que procura ultrapassar o relato pessoal para investigar questões como desejo, sexualidade, maternidade, padrões de beleza, doença e sobrevivência.

"A Dayse, minha personagem no 'Cyclone', é uma operária e dramaturga de 1919 que descobre, a partir de uma gravidez indesejada, que seu maior obstáculo é não ser dona do próprio corpo. No longa, ela passa por uma histerectomia depois de um aborto malsucedido. Eu a interpretei antes de saber do carcinoma. Quando o filme começou a circular, em junho de 2025, era eu quem estava tentando ser dona do meu corpo — eu havia passado por uma mastectomia dupla em fevereiro do mesmo ano. Foi o meu primeiro longa como produtora, um filme feito por uma equipe majoritariamente feminina, e ele chegou ao mundo no ano mais difícil da minha vida. Nesse meio-tempo, meu pai se foi. A trajetória do filme e o prêmio de Melhor Atriz no Fest Aruanda, no fim daquele ano, chegaram para me lembrar que, mesmo diante do caos, a vida presta", desabafa Luiza, que trabalhou em cults como "Gorila" (2012).

A dramaturgia que ela leva ao Poeira também percorre os significados históricos e culturais atribuídos ao peito feminino, da iconografia religiosa e das amas de leite no Brasil colonial à explosão dos implantes de silicone nos anos 1990. O corpo surge, assim, como território em que se inscrevem desejos, normas, medos e interdições. A escolha da multidisciplinar Bia Lessa para conduzir o projeto reflete a intenção de Luiza de escapar de uma encenação meramente confessional.

Conhecida por experiências que aproximam teatro, artes visuais, literatura e arquitetura, a diretora de experiências teatrais - como o "Medeia" de 2004 - e experiências audiovisuais - tipo "O Diabo na Rua no Meio do Redemunho", de 2023, e "Crede-Mi", de 1996 - concebe o palco como parte ativa da dramaturgia.

"A Bia entra no corpo da peça. Eu cheguei com um texto, uma pesquisa e uma história. Ela me pediu coragem e me deu chão. É uma diretora rigorosa, viva. Trouxe à tona o subterrâneo do texto com alegria e veemência", explica Luiza.

Nesta montagem, a ação se concentra em aproximadamente um metro quadrado, enquanto a plateia ocupa o espaço tradicionalmente destinado à atuação. A limitação física converte-se em metáfora para os obstáculos que a sociedade impõe às mulheres — e para a necessidade de transformar aquilo que não pode ser desfeito.

O cenário se modifica continuamente, em uma sequência de 65 fragmentos manipulados pelas atrizes convidadas Dani Kupek e Erika Mader. A encenação incorpora ainda objetos cotidianos, como jornais, barbantes e fitas adesivas, preservando as marcas do processo de criação. A própria camisola usada por Luiza é a mesma que ela comprou para vestir no hospital após a cirurgia. Costurada, cortada e transformada durante os ensaios, a peça de roupa funciona como registro material da experiência que deu origem ao espetáculo.

Produzido por Luiza com Pablo Sanábio, "O que meu peito carrega sobre mim" reúne ainda a colaboração de Camila Toledo na geografia cênica, o conceito de Oskar Metsavaht e Juliana Suassuna e a música original de Dany Roland. "O Pablo entra para que tudo isso exista. Produzir e estar em cena ao mesmo tempo é quase impossível, e ele segurou a estrutura para que eu pudesse ser só atriz quando precisava. É implacável, no melhor sentido. Um grande parceiro", classifica Luiza.

Nessa montagem, ela propõe que, diante das transformações irreversíveis da vida, a arte possa abrir espaço para novas formas de elaborar a memória e o próprio corpo.

SERVIÇO

O QUE MEU PEITO CARREGA SOBRE MIM

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo)

aTÉ 20/12, de quinta a sábado (20h) e domingos (18h)

Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)