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Nuno Leal Maia: 'Está faltando a gente se amar mais'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Nuno Leal Maia como o taxista Nicola em cena na comédia 'Meno Male'

Campeoníssimo de audiência na Globo dos anos 1980 e 90, emendando folhetins inovadores, como "Vereda Tropical" (1984), "A Gata Comeu" (1985), "Top Model" (1989) e "Vamp" (1991), o santista Nuno Leal Maia entrou em erupção nos palcos - terreiro onde iniciou a carreira, no apagar das luzes dos anos 1960 - num dos papéis que tornam a peça "Meno Male" uma hilária cartografia do Brasil. O texto, de 1987 (mas ainda atualíssimo), é de um ator, Juca de Oliveira (1935-2026), que virou um jorro de dramaturgia nas artes cênicas. Nuno, que sempre amou futebol e chegou a treinar equipes, hoje ataca como craque no Teatro dos 4, sob a direção de Léo Stefanini, no papel de um taxista que pisa no freio ao sentir feder a marola corrupta (modo minion) que empesteia a nação. Nicola, chofer de praça amante de ópera, italiano imigrado para a Mooca, cuida da sua neta, a estudante Angelina (Naiara de Castro), como quem protege um tesouro. É um avô com "A" maiúsculo. Só não sabe que a moça anda saracoteando a mil, e em fricções horizontais, com um político maroto (Joaquim Lopes), que tem esposa furibunda (Suzy Rêgo), secretária (e dublê de amante) zelosa (Antoniela Canto) e um aspone invejoso (Carmo Dalla Vecchia, em estado de graça em cena).

Aos 79 anos, Nuno já fez de um tudo na arte de atuar, desde hastear a bandeira hippie em "Hair" até encarar o "Escorpião Escarlate" do mestre do terrir Ivan Cardoso. Agora ele joga no time da gargalhada crítica das artes cênicas. "Meno Male" permanece no Teatro dos 4, a lotar salas, até 29 de novembro, mas ele quer ficar mais com Nicola. Tomou gosto por aquela quixotesca figura, que resgata as doçuras de um país que fez dele um símbolo de povão, em especial o bicheiro Tony Carrado de "Mandala" (1987), que cortejava Jocasta (Vera Fischer) ao som de Rosana, a cantar "Como Uma Deusa".

Em cerca de cinco décadas de meia de ofício, o ator arrastou multidões para as salas de cinema numerosas vezes, estrelando blockbusters como "O Bem Dotado, O Homem de Itu", visto por 2,4 milhões de pagantes em 1978. A seguir, Nuno chuta a gol, na cancha da saudade, remorando sua travessia pela excelência.

De que maneira a São Paulo de "Meno Male", na dramaturgia de Juca de Oliveira, hoje nos palcos do Rio, é um microcosmo do Brasil?

NUNO LEAL MAIA — A peça retrata a São Paulo da época em que Juca de Oliveira escreveu o texto, ali pelo fim dos anos 1980, mas com muito da década de 1970. Eu não convivi muito com ele, nem vi a montagem original, mas hoje encontro ali um universo maravilhoso, de muita riqueza. Tenho uma tradição no teatro: fiz "Hoje É Dia de Rock", com Zé Vicente, atuei em textos de Plínio Marcos e de Nelson Rodrigues, fiz Tennessee Williams. O teatro é como se fosse uma escola. A gente sempre aprende. Com esse texto do Juca, eu aprendo um pouco mais sobre o homem brasileiro.

Não seria exagero algum afirmar que, entre o fim dos anos 1970 e meados da década de 1980, você foi o cinema brasileiro... na sua natureza mais viva e popular. Sua presença nas telonas do país era gigante... e constante, em sucessos como "O Bem Dotado, O Homem de Itu" e "Dama do Lotação" e em cults como "O Beijo da Mulher Aranha". Na TV, tivemos o Tony Carrado de "Mandala" e o Gaspar de "Top Model". Cada sucesso desse trazia, a partir do seu talento, uma representação diferente para a masculinidade brasileira. Essa sua sintonia com os signos do "homem do Brasil" foi algo pensado? Que homens são esses?

Foram personagens muito diferentes. Por exemplo, eu filmei com o Eduardo Escorel "Ato de Violência", inspirado na história do (assassino) Chico Picadinho, que trazia um outro olhar sobre o masculino - e que a gente precisa discutir. Teve o "Ao Sul Do Meu Corpo", que fiz com o Paulo Cezar Saraceni (e que representou o Brasil na Berlinale, em 1983), e era muito singular. A partir do texto do Juca, o que eu vejo é: o homem brasileiro hoje está muito dividido. Um pouco como a nossa política. O meu personagem, em "Meno Male", responde um pouco a isso com afeto. É um homem amoroso.

O que o personagem Nicola tem a dizer ao público para além das situações cômicas?

Ele tem uma fofura que está faltando. Está faltando a gente se amar mais.

Sua atuação hilária no palco com "Meno Male" é de se aplaudir de pé e pedir bis, impressionando em especial as gerações que cresceram numa época em que sua imagem era mais recorrente no audiovisual do que nas salas de espetáculos. Como se desenha sua trajetória teatral?

Eu fiz muito teatro, a partir de 1970, quando entrei na montagem de "Hair", com a Sonia Braga, como parte da tribo hippie do espetáculo. Aliás, teve uma vez, no Rio, em que eu e o Pingo, o irmão (também ator) do Paulo César Peréio, em meio à divulgação desse musical, fomos parar na antiga redação do Correio da Manhã, vestidos como hipongas. O que acontece é que o cinema, por gostar muito de mim, sempre aparece na minha vida. E eu amo o cinema também. Eu vou ao cinema desde os cinco anos de idade. Adorava chanchada. Vi "Nem Sansão, Nem Dalila" cinco vezes! Não vou ao teatro como vou ao cinema, mas sei o quanto o palco tem valor e como o teatro é importante para o ator. Mas aprender a técnica do cinema, que é muito difícil, é um barato, sobretudo saber como ter interação com a câmera.

O cinema brasileiro vive um momento de transformação. Como o senhor enxerga o futuro da produção nacional?

Tenho notado um movimento de internacionalização do nosso cinema, mas também uma certa elitização, o que pode fazer a gente perder público. Mas o cinema tá aí. Ele nunca acaba e eu tenho um filme para lançar, chamado "Sangue de Groselha" (Marko Martinz e Loli Menezes), com Natália Lage e Marcos Breda.

Atleta, o senhor também é um apaixonado por futebol e chegou a ser técnico de times (como o São Cristóvão). Como avalia o momento do esporte brasileiro?

Vejo com tristeza o futebol brasileiro hoje. Acho que a gente retrocedeu. Os jogadores se embruteceram e as arbitragens se corromperam. Perdemos um pouco a identidade. Não fizemos jus àquilo que o Zagallo sempre buscou: que a gente tivesse uma identidade.

O Brasil deveria investir mais na formação de jogadores?

Quem ganhou cinco títulos em Copas do Mundo deveria ser uma escola de formação de jogador e não importar técnicos.

Como torcedor do Fluminense, o que o incomoda na equipe atualmente?

O Ganso é um dos poucos que ainda representam um tipo de futebol de que gosto. Um jogador como ele, que joga com inteligência, é raro. Fiquei feliz com a chegada do Marcão como técnico, mas o Nonato não é para ser titular. O negócio é botar o Hércules para jogar.

SERVIÇO

MENO MALE

Teatro dos 4 (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52)

Até 29/11, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)

Ingressos: R$ 173,37 (inteira) e R$ 73,68 (meia)