Refúgio gay
No efervescente bairro do Soho, em Londres, o universo LGBTQIAPN viveu livre e intensamente seus encontros, descobertas sexuais, resiliência, luta e luto, numa época devastadora da epidemia de HIV/Aids. O texto do britânico Jack Holden revisita as agruras e a urgência vital, com foco central, no que os gays transpassaram nos anos 1980, tendo em conta que um diagnóstico aterrador era visto como sentença de morte. A tradução de Rodrigo Nogueira engendra vocábulos que se fluidificam para brasileiros..
"Cruise" relata o encontro entre Jack, um jovem voluntário num serviço telefônico de apoio à comunidade gay, e Michael, um homem em crise e mais velho, que desloca o tempo, reconstituindo suas paixões numa imersão pela cultura clubber, fervendo nas pistas ao som de George Michael e Pet Shop Boys, onde londrinos ainda fortaleceram a popularização da House Music como um de seus pilares, advinda dos Estados Unidos, circulando por locais à procura de envolvimentos casuais.
Orlando Caldeira insufla um ritmo vertiginoso que dialoga convenientemente com a composição da narrativa. Edifica um espetáculo de extremo bom gosto, através do qual somos embalados todo o tempo. O diretor assevera sapiência, articulando marcas que propõem uma dinâmica, pela qual a montagem vai ganhando força e dramaticidade, além de conduzir seu intérprete para exponenciar um caleidoscópio de emoções.
Nada nos faz tirar a atenção de Igor Cosso, tamanha a entrega que dispensa às personagens que vivencia. O ator reflete destreza ao proferir seu monólogo, sem perder o fôlego, desde de seu Jack, sustentando uma variação de ideias, com as quais fortifica os meandros das vicissitudes que, sobretudo, perpassa seu Michael. Toda a sequência de movimentos na dança é notável por auxiliar a elaborar o luto pela perda de amigos, além de expurgar um período nefasto.
Um piso avermelhado ampara a eficiente cenografia de Vino Fragoso, comportando uma parede de ferro com grades, remetendo às boates ao findar do século XX, e no centro da cena uma estrutura, que a direção ressignifica positivamente. O figurino de Tiago Ribeiro é hedonista, com textura marcante. Pedro Carneiro cria efeitos luminares ágeis e um adequado agrupamento de lâmpadas tubulares coadunam com a narrativa. Tripés e torres com ribaltas de led ornamentam a caixa cênica, mas os corredores poderiam ter mais personalidade, sem permitir que a geral os invada, delineando com mais exatidão a dramaturgia da luz.
A peça ainda usa o filme "Top Gun", com Tom Cruise, como um símbolo de masculinidade. Ademais uma curiosidade: o diretor Quentin Tarantino faz, como ator, uma participação em "Dorme Comigo", defendendo que "Top Gun" é uma metáfora sobre homossexualidade. Não é à toa que Holden alude ao sucesso americano. "Cruise" é um ótimo exemplo de montagem, que exalta a vida, a libertação, sem caretice, apesar do retrocesso que o mundo nos obriga cada vez mais.
SERVIÇO
CRUISE - MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana)
Até 2/11, aos sábados, domingos e segundas (20h).
Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)