A hora do monstro (e do monstrinho)
Coletivo Gompa ocupa CCBB Rio com duas montagens de Camila Bauer inspiradas na obra de Mary Shelley: 'Frankenstein' e 'Frankinh@, versão para crianças
Inaugurado em outubro de 1989, o CCBB Rio completa 37 anos e escolheu comemorar com uma ocupação inteira dedicada à criatura de Mary Shelley. O projeto "Gompa no CCBB Rio — Ocupação Frankenstein para Todas as Idades" leva ao centro cultural dois espetáculos do coletivo encenados por Camila Bauer, vencedora do Prêmio Shell de melhor direção em 2025 por "Instinto".
A montagem para adultos, "Frankenstein", fica em cartaz até 15 de novembro. Mesclando teatro, dança, artes visuais e trilha sonora original, o espetáculo reinventa a primeira obra de ficção científica da história com uma inversão: o ser gerado por Victor Frankenstein é uma mulher que não consegue e não quer se adaptar aos desejos do homem que a criou. A trajetória desse ser composto de partes de outros seres é apresentada como metáfora da constituição brasileira — e latino-americana —, traçada nos corpos dos bailarinos Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti, com perspectiva decolonial.
"Estamos muito felizes de voltar ao Rio de Janeiro, esta cidade que nos recebeu tão bem. O público carioca é aberto, gosta de conhecer outros grupos, outras linguagens. Tenho certeza que vai ser uma temporada linda. O CCBB é um espaço muito especial e acolhedor. Vai ser um momento de compartilhar as vivências do Coletivo Gompa e de crescermos com a cena local", comemora Bauer.
A diretora explica que os dois espetáculos nasceram das mesmas perguntas, em registros distintos. "Eu sempre gostei muito desta obra, de como ela revela nossa incompletude, nossa dificuldade de lidar com as perdas e nosso desejo de driblar a morte. Fiquei pensando como seria falar disso com as crianças, falar sobre a solidão, sobre a tristeza, mas também sobre a invenção, a criação de mundos mágicos, de universos mais acolhedores, de pessoas mais empáticas em um contexto de bullying crescente", afirma.
"Já para os adultos, quis usar a obra como uma metáfora desta América Latina, deste corpo latino-americano que se constrói a partir de outros corpos, de processos de colonização e tentativas de apagamento dos povos negros e indígenas. Quem somos nós, em meio a esta colcha de retalhos que é a própria humanidade? E como decolonizamos nosso pensamento?", questiona.
"Frankenstein" tem dramaturgia de Bauer em parceria com Pedro Bertoldi e colaboração de Carina Corá, direção coreográfica de Carlota Albuquerque e narração de Sandra Dani e Elcio Rossini. "Frankinh@", com dramaturgia de Bauer e Marco Catalão, conta a história de um Victor Frankenstein jovem, esquisito e solitário que, quase sem querer, cria alguém para lhe fazer companhia. A criatura, porém, não sai como ele queria — e cabe aos dois descobrir que a diferença é bela e divertida. A peça, que aborda solidão, bullying, amizade e aceitação das diferenças com recursos de ciências e ilusionismo, tem no elenco Fabiane Severo, Liane Venturella e Thiago Ruffoni, e segue até 15 de novembro.
Professora de dramaturgia da UFRGS, doutora pela Universidade de Sevilha e pela Universidade Livre de Bruxelas, Bauer soma o troféu Tibicuera de direção e espetáculo por "Chapeuzinho Vermelho" e o prêmio Braskem em Cena por "Estremeço". À frente do Coletivo Gompa desde 2014, ela produz com o grupo espetáculos como "Margem Oculta", "Olga", "Derrota", "Amazônia" e "Meretrizes", além de cinco obras audiovisuais.
A ocupação vai além dos dois espetáculos e terá seis oficinas gratuitas no Teatro II: "Dramaturgia da Máscara", com Liane Venturella, de 21 a 23 de outubro; "Dramaturgias do Corpo", com Letícia Paranhos, em 28 e 29 de outubro; "Histórias de Arrepiar", com Pedro Bertoldi, em 31 de outubro, para adolescentes; "Era uma Vez… Criações Assombradas", também com Bertoldi, em 1º de novembro, para crianças; "Danças Urbanas para Crianças", com Thiago Ruffoni, em 7 de novembro; e "Dramaturgias Híbridas", com a própria Bauer, em 12 de novembro. No dia 23 de outubro, às 18h, figuras mascaradas criadas na oficina de máscaras atravessam os corredores do CCBB na intervenção "Aparições", gratuita e sem retirada de ingressos.
Mary Shelley tinha 18 anos quando começou a escrever o romance que fundou a ficção científica. Dois séculos depois, sua criatura não cabe mais num corpo só. É a mulher que recusa seu criador e o monstrinho que ensina uma criança a aceitar o que não saiu como planejado — afinal, quase nada sai como a gente deseja.
SERVIÇO
FRANKENSTEIN
Até 15/11, Quarta a sábado e segundas (19h) e domingos (18h)
FRANKINH@ — UMA HISTÓRIA EM PEDACINHOS
Até 15/11, sábados (15h) e domingos (11h e 16h), às 11h e 16h.
CCBB Rio (Rua Prmeiro de Março, 66)
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)