Na pista da sobrevivência
Montagem de Orlando Caldeira, 'Cruise' aproxima gerações LGBTQIAPN e faz do Soho dos anos 1980 um espaço de luto, desejo e resistência
Em uma longa conversa telefônica, um jovem voluntário e um homem que atravessou os anos mais duros da epidemia de HIV/aids se encontram em tempos distintos. É dessa escuta que "Cruise — Minha Última Noite na Terra" parte para reconstruir, no palco, um período em que a liberdade nas pistas de dança convivia com o medo, a perda e a violência do preconceito. Primeira montagem brasileira do texto do britânico Jack Holden, o espetáculo está em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, com Igor Cosso em cena e direção de Orlando Caldeira.
Cosso interpreta Jack, voluntário de uma central de apoio à comunidade LGBTQIAPN+, que recebe a ligação de Michael. Mais velho, o interlocutor conduz o rapaz por uma noite de lembranças que atravessa o Soho londrino dos anos 1980. No centro da narrativa estão homens que descobriram nos clubes, na música e nos encontros casuais uma possibilidade de pertencimento, ao mesmo tempo em que precisavam responder à chegada de um vírus então cercado por desinformação, abandono e moralismo.
Holden escreveu "Cruise" a partir de histórias colhidas quando trabalhou como voluntário no Switchboard, serviço britânico de escuta e apoio à população LGBTQIAPN .
O sobrevivente Michael carrega consigo desejo, humor, perdas e ambivalências. A dramaturgia entende que lembrar aquela geração exige falar da morte, mas também da festa: para muitos corpos marginalizados, a pista era abrigo, convívio e uma forma de continuar vivo.
Com tradução de Rodrigo Nogueira, o texto convoca referências da cultura clubber, de George Michael e Pet Shop Boys à consolidação da house music, mas o que sustenta a narrativa é o movimento entre duas gerações: Jack, que escuta uma história anterior à sua, e Michael, que transforma uma ligação em transmissão de memória. A conversa cria uma ponte entre a urgência da juventude e a experiência de quem precisou sobreviver ao que, nos anos 1980, era frequentemente entendido como sentença de morte.
Orlando Caldeira conduz o monólogo com ritmo alto, sem confundir velocidade com atropelo. A encenação encontra na dança uma ferramenta narrativa: o corpo de Cosso muda de registro, personagem e tempo, e a coreografia também materializa a tentativa de elaborar o luto. O diretor evita a ilustração literal de uma época; prefere construir um fluxo em que música, luz e movimento fazem o espectador oscilar entre a euforia de uma boate e a solidão de uma conversa noturna.
O desafio do intérprete é justamente sustentar esse trânsito sem apoio de contracena visível. Sua atuação organiza os diferentes interlocutores com precisão e não abandona o protagonista no desenho de Michael. Jack é, afinal, o filtro por meio do qual o público descobre a história: alguém que chega àquele legado sem ter vivido seus códigos e aprende, aos poucos, que a memória de uma comunidade não é uma cronologia pronta. É uma disputa contra o apagamento.
A entrega física do ator dá ao solo a pulsação necessária, especialmente quando a dança deixa de servir à reconstituição de uma noite e passa a expressar ausência e permanência.
A cenografia e a iluminação de Vino Fragoso colaboram com essa passagem. Um piso avermelhado, uma parede de ferro com grades e uma estrutura central flexível sugerem tanto a atmosfera de um clube quanto os limites impostos aos corpos que ali buscam liberdade. As lâmpadas tubulares, tripés e ribaltas de LED não funcionam apenas como decoração de boate: a luz altera a escala emocional da cena e cria recortes para a memória.
Ao usar "Top Gun" e a imagem de Tom Cruise como ponto de observação sobre masculinidade, o espetáculo aproxima o passado de Michael de discussões ainda abertas. Com afeto, humor e música, ele reconhece a devastação sem aceitá-la como a única alternativa sobre toda uma geração.
SERVIÇO
CRUISE - MINHA ÚLTIMA NOITE NA TERRA
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana)
Até 2/11, aos sábados, domingos e segundas (20h).
Ingressos: R$ 70 e R$ 35 (meia)