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Tempo de afeto

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Ocotidiano de uma família humilde é atravessado pelos imprevistos de um Brasil inconstante. Ivan Fernandes se abrilhanta em "Café, Almoço, Jantar", na medida em que expõe uma carpintaria eloquente, entremeando dores a fragmentos do macrocosmo econômico-político-social, que funciona como pano de fundo para sustentar uma excelente narrativa. O autor, poética e ostensivamente, ornamenta o tempo como seu aliado, para reverberar inquietações entre laços afetivos.

Três fases do país são vivenciadas na pensão de Dona Filó através da dramatização de três refeições. Uma mãe solteira carrega a família, gerando um filho ardiloso, um neto rebelde, que teve na avó o comprometimento de sua educação, e um amigo que auxilia nos afazeres do estabelecimento, criando vínculos amorosos naquela parentela. Permeando suas personagens repletas de afeto, o dramaturgo rememora o ano de 1987, num momento pós-ditadura militar, citando o falecimento de Tancredo Neves e a posse do então Presidente José Sarney, passeia por 1994 ao relembrar o Plano Real implantado por Fernando Henrique Cardoso, até pousar em 2018 com a extrema direita no poder, revelando aflições, sem ser partidário.

A direção do autor e de Maíra Kestenberg se alimenta da condução de seus intérpretes, fomentando um jogo da melhor qualidade entre eles, sem permitir que se corrompam em estereótipos, orientando as construções e contradições das nuances psicológicas. Instaura ritmo e enriquece as passagens de tempo com gravações que delimitam épocas.

Fátima Patrício edifica sua matriarca com uma simplicidade sublime, em perfeita sintonia dramatúrgica. A atriz dosa com exatidão sua emoção ao explorar a contracena. O Américo de Renato Albuquerque é divertido e emocionante, haja vista que o artista articula flutuações interpretativas, além de uma boa corporeidade, pela qual somos abarcados diante da personagem, vítima de uma pandemia que nos faz recordar tempos fúnebres. Aldo Perrotta, com ótima voz e dicção impecável, trafega com sabedoria, utilizando humor em mensagens subliminares, reforçando a malandragem de seu Paolo. Gabriel Breves comprova inteligência cênica, definindo com extrema clareza as atitudes comportamentais dos períodos distintos que Hermes atravessa. O ator se emociona, sobretudo na última cena, em que variações filigranadas realçam seu talento. O elenco imprime química esplêndida.

A cenografia de Rostand Albuquerque é econômica, dialogando com o realismo proposto. Ticiana Passos é objetiva em enroupar as personagens, com destaque para o figurino preto do roqueiro Hermes. A luz de Luis Carlos Nem é funcional e a trilha sonora de Ivan Fernandes evoca Cazuza no ponto certo.

Vale ressaltar a citação do Titã Cronos na cena final, instigando uma confusão fonética com Khronos - que na mitologia grega, está associado ao tempo, é inexpugnável e rege os destinos. O escritor aposta no intelecto para enaltecer o afeto!