Bonecos encantados
Festival de teatro de animação para crianças leva nove espetáculos ao Teatro Ruth de Souza de 10 de outubro a 1º de novembro
Aos sábados e domingos, às 11h, a Rua Murtinho Nobre, 169, vira endereço de marionetes, máscaras e bonecos. É lá, no Teatro Ruth de Souza, em Santa Teresa, que acontece o Anima Santa - Festival de Teatro de Animação para Crianças, entre 10 de outubro e 1º de novembro. A ideia partiu de Paty Lopes, produtora que também assina crítica teatral, ao decidir levar para o bairro os colegas do laboratório de teatro de animação do Sesc Tijuca.
Os trabalhos já haviam integrado a mostra local do projeto Palco Sesc Giratório, dedicado ao vigor das formas animadas no Brasil. Agora, ela assume a produção: acredita no potencial do grupo e na responsabilidade de entregar ao público espetáculos à altura da tradição que os inspira.
O palco escolhido não é cenário neutro. Inaugurado em 2021 no antigo Parque das Ruínas, hoje Parque Glória Maria, o teatro homenageia a atriz que morreu em 2019 — pioneira do Teatro Experimental do Negro e a primeira atriz negra a protagonizar uma telenovela no Brasil — e se consolidou como casa da pesquisa cênica e da diversidade étnico-racial na rede municipal. E quem reúne e orienta os alunos do laboratório é o professor, ator e manipulador Márcio Nascimento, apontado por críticos do estado como um dos maiores artistas do teatro de animação do Brasil, autor de um solo que revisita "Otelo" de Shakespeare com bonecos e música ao vivo.
O momento do gênero ajuda a explicar a ambição. Do mamulengo nordestino às montagens altamente técnicas e poéticas das últimas décadas, o teatro de formas animadas vive hoje um de seus períodos de maior reconhecimento crítico. O exemplo mais recente é "Azul", da Artesanal Cia. de Teatro, que aborda neurodiversidade e afeto familiar com bonecos: depois de ganhar o Prêmio APTR de Melhor Espetáculo Infantil de 2023, foi eleito Espetáculo do Ano infantojuvenil pela APCA, acumulando passagens por 16 cidades e mais de 23 mil espectadores. É nesse ecossistema que Paty Lopes encaixa o festival, buscando oxigenar a cena local e formar novas gerações de artistas e espectadores.
"Ter o artista Márcio Nascimento como professor e orientador é um ganho artístico tremendo para quem está pesquisando as formas animadas", destaca a produtora. Márcio, por sua vez, amplia a aposta: "Trazer novidades e experimentações para o mercado de teatro infantil é fundamental. O teatro de animação permite criar mundos poéticos únicos e dialogar com as crianças de forma direta e transformadora."
A programação distribui nove espetáculos por quatro fins de semana. Na estreia, dias 10 e 11, "Incondicional", de texto e boneco de Marcelo Dog, conta a história de amor e de vida entre um homem e dois cães — o afeto do cachorro como maior exemplo prático de amor incondicional — e "Você tem medo de que?", idealizado por Pedro Ivo, em que duas crianças trocam ideias sobre seus medos e sobre quem vence no fim: você ou o medo. Dias 17 e 18 é a vez de "O Casamento", com criação de bonecos e dramaturgia de Karina Cavalcanti, em que uma jovem sonhadora, seduzida pela promessa de uma cigana, vê dois pretendentes disputar seu coração — e caberá ao público decidir quem sobe ao altar — e de "O Vestido", da mesma autora, no qual um vestido atravessa o tempo e abre portas para memórias afetivas, entre cantigas, cheiros e saudades.
Dias 24 e 25, a Trupe Teatral Os Trágicos da Cidade apresenta "O Pato do Imperador", versão em cena curta de "Os Mendigos e o Pato do Imperador", sob direção convidada de Andréa Cevidanes: uma trupe mambembe chega ao Reino de Anarinacheirabufa, transforma um pato em refeição improvável e descobre que ele pertencia ao imperador — personagens que, mesmo chamados de mendigos, afirmam uma nobreza que não se encontra nos títulos nem nos bolsos, mas nos atos. No mesmo fim de semana, "A Aventura de Obax", da Cia Casa Alheia de Teatro, adaptada e dirigida por Thiago Emanuel, parte de uma narrativa protagonizada por uma menina negra e atravessada pela oralidade: Obax jura ter visto uma chuva de flores na savana onde vive, ninguém acredita, e ela parte com Nafisa, seu amigo elefante, em busca de outra chuva — imaginar como forma de transformar o mundo.
No encerramento, dias 31 de outubro e 1º de novembro, três montagens fecham o ciclo: "Maria Bonita e a Peleja com o Sol", de texto de Paty Lopes, em que Maria Deia, a primeira mulher do cangaço, retorna para um último encontro com o Sol, seu único ouvinte e confidente; "A Escola de Punks", da Cia. Mini Ato, com os bonecos roqueiros Billy 'The Punk' e Avril Larvinha e suas trapalhadas; e "Bolo da vovó", idealizado por Kamilla Ferreira, em que uma avó, no meio do bolo preparado para a família, lida com uma ligação inesperada e com a frustração — com a mesma doçura da receita.
SERVIÇO
ANIMA SANTA - FESTIVAL DE TEATRO DE ANIMAÇÃO PARA CRIANÇAS
Teatro Municipal Ruth de Souza (Rua Murtinho Nobre, 169, Santa Teresa)
De 10/10 a 1/11, sábados e domingos (11h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)