A Barca volta às origens
Musical 'Gonzaguinha É', em cartaz no Sesc Ginástico, é a nova montagem do grupo que soma mais de 800 apresentações e mais de 50 prêmios
Em 2012, o Sesc Ginástico viu nascer a Barca dos Corações Partidos, quando estreou "Gonzagão - A Lenda", musical sobre Luiz Gonzaga produzido pela Sarau Cultura Brasileira e assinado por João Falcão. Quatorze anos depois, a mesma companhia volta ao mesmo palco do Centro do Rio para olhar para o filho do Rei: em 25 de setembro estreia "Gonzaguinha É", que inaugura também a contagem para os 15 anos da trupe. A direção é de Inez Viana, o texto é de Braulio Tavares e Ana Carbatti — que assina ainda a direção assistente —, e a direção musical e os arranjos são de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos.
O retorno não é apenas sentimental. Desde "Gonzagão", a Barca se firmou como um dos grupos mais celebrados do teatro musical brasileiro, com uma linguagem própria que costura teatro, música, dança e performance tendo a cultura brasileira como matéria-prima. São mais de 800 apresentações em mais de 60 cidades, público superior a 600 mil espectadores e mais de 50 prêmios acumulados, entre eles Shell, APTR e APCA. É dessa estatura que o grupo chega à sua festa de 15 anos — e elege Gonzaguinha para abri-la.
"Gonzaguinha É" foge da biografia teatral de praxe. A montagem parte da trajetória e das canções do compositor para mergulhar nas muitas dimensões de um artista que transformou a própria história em maneira de falar sobre o Brasil. Em cena, cada um dos artistas assume o papel de Gonzaguinha e se reveza nos instrumentos, marca registrada das criações da Barca. "O Gonzaguinha foi pensado também como uma maneira de a Barca olhar para a própria trajetória e para o seu começo como grupo de teatro, que aconteceu a partir do projeto do centenário do Luiz Gonzaga. Depois de termos visitado toda a obra do pai, foi muito natural querer falar sobre o filho. E acabamos chegando aos 80 anos de Gonzaguinha", conta Andréa Alves, idealizadora e produtora artística do espetáculo e fundadora da Sarau. "Existe ainda uma relação muito próxima e afetiva que construímos com a família Gonzaga ao longo desses anos."
A ligação da produtora com os Gonzaga, aliás, antecede a própria Barca: há mais de duas décadas a Sarau desenvolve projetos em torno da obra da família, relação que chega direto à criação. Nanan Gonzaga assina a consultoria criativa e abriu ao grupo o acervo pessoal do compositor, materiais que alimentaram a dramaturgia.
Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior nasceu no Morro de São Carlos, no Rio, em 22 de setembro de 1945, filho do Rei do Baião e da cantora Odaléia Guedes dos Santos, morta de tuberculose quando ele tinha dois anos. A partir dos anos 1970, pavimentou uma carreira que o consagraria como um dos grandes nomes da música popular brasileira, atravessando a Ditadura Militar e as lutas pela democracia sem nunca se resumir à canção de protesto. Em suas músicas convivem desigualdade e amor, infância e esperança, denúncia e alegria de estar vivo. "Explode Coração", "Sangrando", "Começaria Tudo Outra Vez", "Grito de Alerta", "O Homem Falou" e "O Que É, O Que É?" seguem gravados e reinterpretados por gerações que nem nasceram quando ele morreu, em abril de 1991, aos 45 anos, num acidente de carro no interior do Paraná.
"A obra dele fala de um Brasil profundo, de um Brasil real. Gonzaguinha atravessou momentos de luta pela democracia e pela manutenção de direitos, mas, quando começamos a revisitar sua obra, percebemos o quanto seria reducionista enxergá-lo somente como um compositor político. Ele fala muito de amor, das crianças, do futuro e da esperança. Existe uma delicadeza enorme ali. É algo que queremos sublinhar no espetáculo", analisa Andréa.
A permanência desse legado ganhou imagem recente e irrecusável: Shakira cantou "O Que É, O Que É?" com Maria Bethânia para cerca de dois milhões de pessoas na Praia de Copacabana. "Essa é uma imagem poderosa da atualidade de Gonzaguinha e do lugar afetivo que sua obra ainda ocupa entre nós. Escolher Gonzaguinha e prestar essa homenagem é apostar em uma obra de enorme potência artística e profundamente brasileira. Porque Gonzaguinha continua dizendo coisas que precisamos ouvir", reflete Leila Maria Moreno, diretora de Projetos da Sarau.
A equipe reúne parceiros históricos e encontros desejados. Braulio Tavares, dramaturgo, poeta e pesquisador da cultura popular, retoma com a companhia a parceria de "Suassuna - O Auto do Reino do Sol" e "Jacksons do Pandeiro". Inez Viana assume a direção de uma colaboração cobiçada há anos pela Barca, que pesou a experiência dela com o trabalho continuado em companhia. Ana Carbatti, cuja história com a Sarau remonta a 1995, quando integrou o elenco de "Forrobodó", voltou à produtora em "Museu Nacional - Todas as Vozes do Fogo" e agora assina o texto e a direção assistente. Completam a montagem Denise Stutz (direção de movimento), Mina Quental (cenografia), Carol Lobato (figurino), Ana Luzia Molinari de Simoni (iluminação) e Gabriel D'Angelo (desenho de som). Em palco, a Barca de Ádren Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros recebe as convidadas Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias.
Sob o espetáculo corre o princípio que move a Sarau desde sua criação, em 1992: contar histórias do país a partir de quem ajudou a construí-la. Em três décadas, foram mais de 260 projetos, entre eles mais de 50 espetáculos teatrais, 46 projetos musicais e 21 álbuns. "A importância de contar Gonzaguinha tem tudo a ver com o propósito da Sarau: contar histórias brasileiras a partir de brasileiros que ajudaram a construir a memória do país. No Brasil de hoje, precisamos ouvir esses grandes mestres que atravessaram momentos tão importantes da nossa história e que continuam nos ajudando a pensar quem somos", diz Andréa.
SERVIÇO
GONZAGUINHA É
Até 25/10, quintas e sextas (19h) e sábados e domingos (17h)
Teatro Sesc Ginástico (Av. Graça Aranha, - Rio de Janeiro
Ingressosa a partir de R$ 50, R$ 25 (meia), R$ 16,50 (convênio empresário), R$ 15 (sócio Sesc) e grátis (PCG)