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O direito de hesitar

Com texto e atuação de Marcéli Torquato, o solo cômico 'Duvido' investiga a dúvida hamletiana como força criativa

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Vivemos em uma sociedade que valoriza histórias de superação, decisões rápidas e confiança inabalável. "Duvido" parte do contrário. O monólogo restreia nesta sexta-feira (2) na Sede da Cia dos Atores, na Lapa. Com texto e atuação de Marcéli Torquato e direção de Camila Nhary, a peça nasceu da vontade de investigar a dúvida como força criativa e propor um espaço onde se desconfia das certezas.

A drammaturgia parte do grande arquétipo que a hesitação ocupa na literatura ocidental: Hamlet, de William Shakespeare, por exemplo, se deixa atravessar pela hesitação persistente e especula até as últimas consequências o preço de agir e o de não agir. Na trama de "Duvido", temos uma atriz espera Hamlet, que está atrasado. Enquanto ele não chega, o palco se transforma em aeroporto, casa e pensamento.

Entre malas, voos e perguntas, o solo percorre histórias de infância, maternidade, amor, medo, luto e desejo, costurando textos clássicos de Shakespeare com temas contemporâneos. Hamlet desvenda um assassinato por meio de uma peça de teatro; em "Duvido", o teatro também é motor, mas aqui para ensaiar a vida — lugar onde a personagem se sente segura, com tudo ensaiado.

"A peça mostra a saga de uma mulher que está diante do público em busca de validação, esperando que alguém diga para ela o que fazer, como seguir, o que vestir. Acredito que é uma busca que todos nós fazemos enquanto passamos pela vida, buscamos nossos espelhos, nossos pares, nos entendemos e nos encontramos nos outros", descreve Marcéli Torquato. "Esta é uma peça de perguntas sem respostas, um elogio a seguir em frente catando cavaco, de seguir sem certezas. A certeza sempre é uma aposta", completa.

A direção é estreia de Camila Nhary, atriz e uma das fundadoras do Bando de Palhaços, grupo carioca criado em 2010. "Em tempos de fake news, de redes sociais, filtros e procedimentos estéticos, passamos a duvidar de nós mesmos, das nossas verdades, dos nossos reais desejos e necessidades, da nossa sanidade. O mundo atual, com excesso de informação, nos traz muito mais dúvidas do que certezas", analisa. "O espetáculo provoca a dúvida no espectador o tempo inteiro, colocando tudo que é apresentado a ele em xeque. Tudo pode ser verdade, e as verdades se tornam mentira num piscar de olhos", acrescenta.

SERVIÇO

DUVIDO

Sede da Cia dos Atores (Rua Manuel Carneiro, 12 — Santa Teresa)

De 2 a 25/10, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)

Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)