O consultório no front de guerra
Finalista do Prêmio Jabuti 2023, o monólogo 'Selvagem', adaptação do romance de Marília Passos, reestreia na Casa de Cultura Laura Alvim
Omonólogo "Selvagem" ocupa a Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, para sua segunda temporada no Rio. Sua personagem é Mariana, obstetra brasileira que deixa casamento, consultório e país para se voluntariar numa missão dos Médicos Sem Fronteiras no Sudão do Sul. Sozinha no palco, a atriz Gabriela Rosas sustenta uma história que se passa a milhares de quilômetros dali, num país devastado pela guerra civil.
O romance que deu origem à peça foi publicado em 2022 pela Editora Labrador e, no ano seguinte, foi finalista do Prêmio Jabuti, na categoria Romance de Entretenimento. Para Marília Passos — campineira que estudou teatro, dança e literatura, foi atriz antes de se dedicar à ficção e lançou em 2024 seu romance seguinte, "Do Mar, o Sonho" —, o ponto de partida foi simples de enunciar e difícil de sustentar.
"A ideia nasceu do desejo de contar uma história de amor ambientada em um lugar extremo. O Sudão do Sul surgiu justamente por reunir tragédia e força, violência e encantamento. Mas, ao longo da escrita, percebi que essa era, acima de tudo, a história de uma mulher que encontra coragem para romper com uma vida infeliz e descobre que a transformação que procura não está no outro, mas dentro de si", descreve a autora. "A adaptação do livro para a peça foi muito rica. Novas camadas e leituras surgiram ao longo desse percurso. A criação nunca termina", completa.
Em cena, a nova rotina de Mariana desdobra-se num ambiente violento, hostil e imprevisível, onde a médica vive uma paixão arrebatadora por Nino, médico brilhante e enigmático que lhe oferece outra forma de enxergar o mundo e a si mesma. A trama discute também as violências e os limites impostos ao corpo feminino e as complexidades da maternidade. O formato de monólogo aperta o círculo: sem parceiros de cena para dividir a atenção, a vulnerabilidade da personagem vira matéria-prima da relação com a plateia, que acompanha de perto o passo a passo de uma decisão de pôr a própria vida de ponta-cabeça.
"O que mais me emociona ao interpretar Mariana é acompanhar a coragem dela de sair de uma vida estável e se lançar ao desconhecido em busca de se sentir viva novamente. Ao enfrentar situações extremas, inclusive no amor, ela encontra força para seguir em frente e transformar a própria história. Queremos que o público seja atravessado por essa trajetória e saia do espetáculo refletindo sobre seus medos, desejos e sobre a coragem necessária para mudar a própria vida", destaca Gabriela Rosas.
Na direção, Fernando Philbert delimita o território da montagem: o centro não é o front de guerra, e sim a mulher cercada por ele. "O foco da peça não é a guerra nem a violência em si, mas a transformação dessa mulher. O que nos interessava era acompanhar essa virada de chave, a descoberta de uma nova forma de viver e de amar. Ao mesmo tempo, o espetáculo aborda questões femininas muito importantes, como a maternidade, a sobrecarga mental e as pequenas violências cotidianas", reflete.
SERVIÇO
SELVAGEM
Casa de Cultura Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176, Ipanema)
De 3 a 25/10, sextas e sábados (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)