O picadeiro volta à Praça Tiradentes
'Alegrai' faz da tradição circense musical que cruza ancestralidade afro-brasileira, samba, carnaval e teatro de revista no palco do Teatro Carlos Gomes
Quase um século depois de companhias circenses fazerem parte da paisagem cultural da Praça Tiradentes, o picadeiro volta a encontrar o palco no coração histórico do teatro carioca. "Alegrai, um musical circense brasileiro" estreia nesta quinta-feira (1º), às 19h, no Teatro Carlos Gomes, levando para a cena uma mistura de acrobacia, música, carnaval, religiosidade popular e referências ao teatro de revista.
Idealizado por Ivo Oliveira e Luciana Nabuco, responsáveis também pela dramaturgia e direção, o espetáculo nasceu no Instituto Unicirco Marcos Frota, na Quinta da Boa Vista, onde permaneceu cerca de três anos como uma sequência de números circenses. A mudança para o palco italiano do Carlos Gomes provocou uma transformação mais profunda: o que era essencialmente circo ganhou dramaturgia, personagens e uma trilha capaz de costurar diferentes universos da cultura popular brasileira.
São 23 artistas circenses em cena, acompanhados por uma banda de oito músicos. Em vez de simplesmente transportar os números do picadeiro para dentro do teatro, a montagem procura recriar sua linguagem. O circo aparece atravessado pelas encantarias, pelas tradições afro-brasileiras, pelas ruas do Rio, pelo samba e pelo carnaval. Nesse território imaginário surge o Povo da Lira, em torno do qual a encenação articula música, corpos e ancestralidade.
"Pela primeira vez em quase 100 anos, uma companhia circense ocupa novamente um teatro na mítica Praça Tiradentes. O espetáculo é a celebração da cultura popular através do circo, das tradições afro-brasileiras, da música, do samba, do carnaval, da ancestralidade pulsante. É a expressão do corpo brasileiro em seu sonho livre, aberto e ousado", comemora Luciana Nabuco.
A ideia de encontro atravessa também o elenco. Aos 82 anos, o ator José Araújo divide o palco com artistas de outras gerações, entre eles Júlia Vargas, cantora e compositora; Nina Wirtti, atriz, cantora e compositora; e Hugo Germano, ator que também responde pela preparação teatral do grupo. A diversidade de trajetórias ajuda a construir uma montagem na qual a experiência do teatro dialoga com técnicas e corpos formados no universo circense.
A música ocupa papel central nessa passagem do picadeiro para o palco. A direção musical é dividida por Ivo Oliveira e Rodrigo Ferrera, e a banda reúne baixo, bateria, cavaquinho, percussão, guitarra, violão, teclado, saxofone, flautas, trompete e trombone. A trilha original traz composições de Ivo Oliveira, Mauro Aguiar, Rodrigo Ferrera, Júlia Vargas, Gui Fleming, Yuri Villar, Diogo Brandão e Luciana Nabuco.
Foi justamente a música que abriu caminho para a versão teatral. Segundo Ivo, as canções autorais funcionaram como ponto de partida para que Luciana construísse a dramaturgia ao longo do processo. Uma delas acabou batizando a montagem.
"O projeto para o teatro nasceu das canções autorais, com a dramaturgia sendo construída por Luciana ao longo do processo. A canção 'Frevo Alegrai', minha parceria com Mauro Aguiar, inspirou o título da montagem", conta o diretor.
A aproximação entre circo e encantaria também desloca o espetáculo da ideia de uma simples sucessão de proezas físicas. Acrobatas e demais artistas tornam-se "encantados circenses", figuras de um universo no qual referências religiosas e culturais brasileiras convivem com a fantasia própria do picadeiro. Figurinos, cenário e identidade visual, assinados por Luciana Nabuco, acompanham essa transformação.
Ao recuperar o circo dentro de um dos palcos mais tradicionais do Centro, "Alegrai" acaba estabelecendo ainda um diálogo com a própria memória da Praça Tiradentes. Durante décadas, a região concentrou algumas das principais formas de diversão do Rio, aproximando o erudito e o popular, o teatro e a música, a revista e a rua. É nesse território de misturas que a montagem procura se instalar.
A discussão sobre essas matrizes ultrapassa o espetáculo. No dia 9 de outubro, às 15h, o Salão Guarany, no próprio Teatro Carlos Gomes, recebe a mesa "Mandingas brasileiras e fundangas encantadas", com entrada franca. O encontro reúne o escritor e professor Luiz Antonio Simas, a educadora, filósofa e escritora Helena Theodoro e a cantora Rita Benneditto, com mediação de Brendow Gabriel, mestre e doutorando em Filosofia pela UFRJ. A proposta é colocar em diálogo filosofia, música e tradição popular, discutindo como mandingas e encantamentos permanecem vivos na cultura brasileira contemporânea.
SERVIÇO
ALEGRAI, UM MUSICAL CIRCENSE BRASILEIRO
Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº - Centro)
De 1 a 11/10, de quinta a sábado (19h) e domingos (18h). | Ingressos: R$ 80 e R$ 40 (meia)