A última noite de sábado
Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta estão no Teatro Poeira com a premiada 'Boa Noite, Mãe', de Marsha Norman
No palco, duas mulheres e uma cozinha. Pela primeira vez juntas em cena, Ana Beatriz Nogueira e Andréia Horta protagonizam "Boa Noite, Mãe", de Marsha Norman, em cartaz no Teatro Poeira. O texto da estadunidense, escrito em 1981, estreou dois anos depois e conquistou o presitgiado Prêmio Pulitzer de teatro. Traduzida por José Pedro Peter, a montagem brasileira tem direção de Leonardo Netto.
Toda a dramaturgia se dá em tempo real, mais especificamente uma noite comum de sábado na qual Jessie comunica à mãe, Thelma, que decidiu tirar a própria vida antes do amanhecer.
O que segue é uma conversa, a primeira verdadeira que as duas tiveram em toda a vida. Segredos, ressentimentos, afetos e silêncios acumulados em décadas vêm à tona. A montagem mergulha nas complexidades das relações e propõe uma reflexão sobre autonomia, afetos, solidão e os limites das escolhas individuais.
"O que me interessa nesse tipo de dramaturgia é a comunicação que ela estabelece com o espectador. Aliás, é o que me interessa na dramaturgia de ficção de modo geral. Acho que meu trabalho, tanto como dramaturgo quanto como diretor, se volta cada vez mais para a ficção. A ficção é muito poderosa porque acessa o espectador não só através do raciocínio, do intelecto", diz Leonardo Netto ao Correio da Manhã.
Filha de uma família de contadores de histórias no Kentucky, Marsha Noman escreveu a peça sobre o tema que ninguém queria encostar, e a coragem rendeu, além do Pulitzer, os prêmios Blackburn, Hull-Warriner e Drama Desk. O texto ganhou montagens no mundo inteiro e chegou ao cinema em 1986, com Anne Bancroft e Sissy Spacek nos papéis da mãe e da filha. Daí uma das coincidências mais curiosas da temporada: em 1987, Ana Beatriz Nogueira disputou o Urso de Prata no Festival de Berlim ao lado das duas americanas — e venceu, pelo desempenho em "Vera", de Sérgio Toledo.
Andréia Horta, que faz a filha, volta ao teatro depois de sete anos dedicados quase que exclusivamente à TV e ao cinema. A atriz, que veio recentemente da série "Três Graças", contracena com quem estreou no palco ainda adolescente, formada no Teatro Tablado e na CAL.
"Em cena estamos eu e Ana Beatriz Nogueira, como mãe e filha em um trabalho de muita concentração e escuta. São duas atrizes em cena sustentando juntas uma situação muito intensa, então existe uma responsabilidade enorme de uma com a outra durante o espetáculo. Minha personagem decide dar fim a sua vida. Fui convidada a tentar compreender sem julgar, e com respeito e delicadeza fui me aproximando dela", conta Andreia ao Correio da Manhã.
A atriz admite que o espetáculo traz um assunto difíci para algumas pessoas. "Por isso acho importante que o público saiba previamente do tema que vai encontrar. O teatro é esse espaço poderoso que nos dá tempo e permite nos reunirmos para pensarmos juntos e lançarmos luz sobre assuntos que muitas vezes tentamos evitar", destaca.
"Li o texto de 'Night, Mother' depois de assistir ao filme — traduzido no Brasil como 'Noite de Desamor' — no Festival de Cinema de Berlim, em 1987. Fiquei, mais uma vez, arrebatada e profundamente impressionada com o que considero o ponto mais trágico da obra: a impossibilidade de comunicação. Foi a partir desse impacto que me reuni a essa turma maravilhosa e tão talentosa e, junto com Joyce Ruiz, sócia e amiga nessa empreitada, produzi o espetáculo", revela Ana Beatriz Nogueira, que recrutou para o projeto nomes experientes: direção de movimento de Márcia Rubin, cenografia e figurinos de Ronald Teixeira e Flavio Graff, iluminação de Ana Luzia Molinari de Simoni, visagismo de Fernando Ocazione.
SERVIÇO
BOA NOITE, MÃE
Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo)
Até 25/10, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h)
Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia)