Elite descontrolada
Um dos nossos maiores dramaturgos e precursor do teatro besteirol, Mauro Rasi aprimorou o teatro brasileiro no final do século passado com obras extraordinárias como "A Cerimônia do Adeus", um de seus textos mais elaborados. E agora, Amanda Jordão destaca-se ao atualizar esse fenômeno do autor, sem arranhar sua espinha dorsal. A semelhança com a hipocrisia de uma elite vigente impressiona, tendo em vista a criatividade de revitalizar a obra, inoculando citações, falcatruas, peripécias, espelhando a putrefação da sociedade brasileira.
A comédia expõe um casal milionário falido em seu apartamento no Chopin - edifício da elite tradicional carioca, na noite do réveillon, desesperados para escapulir da Polícia Federal, armando uma fuga anedótica do país. Criações e aprimoramentos dramatúrgicos são aplicados ao mencionarem crimes burgueses, sonegação fiscal, a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, a decepção da filha ter estudado no Sacré-Coeur em Paris, mas acaba nua num carro alegórico da Grande Rio, o desprezo da música que entra pelo ralo, como "A Peste", de Camus, e por aí vai disparando situações hilariantes.
Atuando em personagens autobiográficos urdidos por Rasi, Emílio de Mello afina-se com a dramaturgia e conduz com expertise a montagem. Parece haver uma boa química entre direção e atores, em que o jogo flui espontânea e satisfatoriamente, mas vale pontuar que alguns momentos o espetáculo deflagra uma certa histeria, nada que desestruture a orientação eficaz, pela qual é instituída ritmo ajustado. A cena ao entrarem em pânico quando ele rasga o Proust e o Valentino dela, ao passo que ela destrói seu Machado de Assis atirando longe o Piazzola e o Stravinsky dele, é um deleite. A direção possibilita um compartilhamento sensorial incisivo e um descontrole patético daquela ruína moral, valorizando a escrita rasiana.
Julia Lemmertz trafega com sabedoria, desenhando sua Sylvia com extrema elegância, uma afetação na medida certa, sem enfatizar o que a bela dramaturgia já impõe. Orã Figueiredo fabrica rusticidade, o que contrapõe o refinamento daquele universo, gerando humor. O ator deve ficar atento aos gritos, que por vezes são demasiados. Os atores divertem-nos num jogo bem articulado.
Chris Aizner ambienta o espaço com uma estrutura revelando luxo e decadência, com um janela para o mar de Copacabana e apenas um Pollock que restou das posses. O figurino, adequado e jocoso, de Karen Brusttolin, reverbera saia ampla, casaco volumoso, com veludo, seda, jacquard, com tecidos encorpados e estampados, reforçando aristocracia e riqueza tradicional. A paleta de preto, creme, vermelho, vinho, azul-petróleo e dourado reflete poder e sofisticação. A luz de Tomás Ribas e Elisa Tandeta é funcional.
"Alta Sociedade" satiriza os excessos e falhas de caráter elitistas, convidando-nos à reflexão sobre a escassez de cidadania e ética, pelas quais o país chafurda cada vez mais!