Memória, humor e exílio olhar de Berta
Espetáculo com direção de Ary Coslov celebra o centenário de Berta Loran, atriz referência de nossa comédia e que nos deixou em 2025
O teatro que Berta Loran escolheu como ofício e lugar de alegria recebe sua história em forma de espetáculo. "Berta - Minha vida por um palco" está em cartaz no Centro Cultural Justiça Federal (CCJF), quando se aproxima o centenário de nascimento da atriz, nascida em 1926 e morta no ano passado, aos 99 anos.
A montagem, escrita por Miriam Halfim e Marcelo Aquino e dirigida por Ary Coslov, acompanha uma trajetória que começa numa infância marcada pela perseguição aos judeus na Europa e se transforma numa das carreiras mais memoráveris da comédia brasileira.
Andrea Dantas, Alexandre Regis, Junior Vieira e Patrícia Pinho formam o elenco. Andrea e Patrícia se alternam no papel de Berta em diferentes momentos da vida, abrindo espaço em cena para saltos temporais e mudanças de linguagem e experiência da personagem.
Além da homenagem em si, o espetáculo nos leva a refletir sobre a fragilidade da memória artística no país, tema que os autores colocam no centro da dramaturgia.
Berta Loran nasceu em Varsóvia, na Polônia, e chegou ao Rio aos nove anos com os pais e cinco irmãos. A família deixava uma Europa em que a perseguição nazista ganhava força e se instalou num sobrado da Praça Tiradentes, epicentro do teatro de revista carioca. O pai, alfaiate e ator, incentivou a filha a entrar em cena ainda adolescente.
A atriz construiu quase oito décadas de carreira e interpretou mais de dois mil personagens. Passou pelo teatro de revista, por dezenas de montagens e pela televisão, meio que tornou seu rosto conhecido em escala nacional. Uma temporada em Portugal, onde viveu por seis anos entre o fim dos anos 1950 e o início dos 1960, está entre os episódios revisitados. A experiência com "Fogo no Pandeiro" deixou marcas que reapareceriam mais tarde na personagem Manuela D'Além Mar, da "Escolinha do Professor Raimundo", com seu sotaque português e o bordão que entrou no repertório popular.
Miriam Halfim, sobrinha de Berta, escreve a partir de uma proximidade familiar que não substitui a pesquisa, mas dá à peça um ponto de escuta particular. "O palco deu a ela tudo o que ela quis. Apesar de uma infância muito difícil, miserável, em Varsóvia, Berta escolheu viver com alegria. Ela dizia que felicidade é uma escolha", afirma a autora.
Para Ary Coslov, a montagem também é uma convocação à lembrança. "É muito importante que as pessoas conheçam a história da vida dela e se lembrem de Berta Loran. Ela era extremamente talentosa", destaca o encenador. A figura de Berta permite discutir quem continua presente nos arquivos, nas instituições e nos palcos depois que a televisão deixa de reprisar certos programas e as gerações se renovam.
"Nós somos um país com um problema sério de preservação da memória. Tem uma questão cultural com a memória, a gente apaga com muita rapidez muitos artistas", afirma o co-autor Marcelo Aquino. Para ele, a peça presta um serviço à arte e à memória e reconhece uma atriz que abriu caminho para humoristas, especialmente mulheres.
SERVIÇO
BERTA - MINHA VIDA POR UM PALCO
Centro Cultural Justiça Federal (Avenida Rio Branco, 241, Centro)
Até 27/9, sextas (19h), sábados e domingos (16h30 e 19h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)