Odisseia que dança na mítica feminina

Raquel Karro recontextualiza em passos e reflexões filosóficas uma das personagens centrais do poema filmado por Christopher Nolan em 'Penelopéia - Uma Palestra Dançada'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Raquel Karro em ação em 'Penelopeia', espetáculo que nasce da inquietação da atriz em relação à personagem de Homero

Existe uma torcida no planisfério cinéfilo em torno da possível e merecida indicação ao Oscar para Anne Hathaway, por seu desempenho em "A Odisseia", de Christopher Nolan, na figura da monarca que aguarda, ao longo de duas décadas, o regresso do marido, vivido por Matt Damon. O desempenho dela não passou indiferente nas pesquisas narrativas de Raquel Karro não apenas acerca dos movimentos (físicos, políticos e poéticos) das mulheres na História, mas também acerca das mitologias constitutivas de nosso imaginário.

Atriz, coreógrafa, ex-trapezista, diretora e dramaturga, essa multiartista investiga há 14 anos a figura de Penélope, uma das personagens femininas mais célebres da literatura ocidental. O que a intrigou desde o início foi a redução de uma mulher tão complexa a uma ação aparentemente passiva: esperar. Dessa inquietação nasceu "Penelopéia - uma palestra-dançada", que passa pelo Rio em três apresentações, nos dias 16, 23 e 30 de setembro, no Teatro Gláucio Gill.

"'Penelopéia' nasceu de um desconforto, de um assombramento a partir da minha identificação com Penélope, sim, aquela da 'Odisseia'. Então tem a 'Odisseia', a leitura da 'Odisseia', a minha leitura da 'Odisseia' e, principalmente, o que se diz da 'Odisseia' por aí. Porque, como eu digo no espetáculo: 'Eu leio as coisas a partir do que se diz delas. E eu conto as coisas a partir do que se diz delas, do que se diz'", explica Raquel. "Outros dois marcos teóricos importantes: 'Teoria King Kong', da Virginie Despentes, e 'A Teoria da Bolsa de Ficção', da Ursula K. Le Guin. O primeiro me fez querer matar tudo que de Penélope eu identificava em mim, na minha mãe e nas mulheres da minha família, e o segundo me ajudou a escolher os contornos dramatúrgicos que gostaria de dar ao espetáculo. A Virginie me fez querer denunciar Homero, brigar com ele: 'Que onda é essa de que a melhor das mulheres, a mais nobre, é também a mais casta? A que espera? O que se espera de Penélope? Que espere? Que proteja o patrimônio? A prole? Enquanto Ulisses se aventura e se deleita no colo de feiticeiras divinas?'. A Ursula me ajudou a desviar o foco de Ulisses, de Homero, do herói ou de uma ideia de heroína. É sobre o que fica do mito no rastro da história, o que cola na gente."

Criada em 2023 como desdobramento do mestrado de Raquel em Artes da Cena na UFRJ, "Penelopéia" cruza dança, teatro, performance e autobiografia. Sua dramaturgia parte de três provocações: "Por que Penélope?", "O que se espera de Penélope?" e "E se esperássemos por Penélope, aquela que tanto esperou?". Perguntas que deslocam a personagem do lugar que a tradição lhe reservou.

Mais do que discutir a fidelidade da esposa de Odisseu, Raquel procura saber o que significa cultural e politicamente associar uma mulher ao ato de esperar — e quais vestígios dessa construção mitológica ainda sobrevivem na experiência feminina contemporânea. "Buscando por Penélopes, o que eu mais encontrei foram Penélopes Charmosas, um ideal bem distante daquele da de Homero, ou pelo menos do que se diz dela", diz Raquel. "Penélope no poema é a mais nobre, a mais bem temperada, a mais casta, a mais fiel, a melhor das mulheres, aquela pra quem Ulisses quer voltar depois de experimentar tantas outras. Eu fui colecionando Penélopes durante o mestrado, entrevistei 32 no Instagram, juntei poemas sobre Penélope, trabalhos de artes plásticas, cartas de tarô, mas o que mais apareceu mesmo foi a da 'Corrida Maluca', a Charmosa! A sensual, aquela que os meninos desejavam quando assistiam ao desenho e que depois usaram como inspiração para o nome das próprias filhas."

O regresso da montagem ganha outra dimensão justamente quando Nolan devolve a epopeia homérica ao centro da cultura de massas. Se Hollywood reencontra Penélope pela escala monumental do épico e pela interpretação colossal de Hathaway, Raquel percorre o caminho inverso: retira a personagem da monumentalidade do mito para procurar seus rastros no corpo e no cotidiano.

Essa investigação extrapola o palco. Nos dias que antecedem as apresentações, Raquel realiza "Esperando por Penélope", performance em que ocupa lugares destinados justamente a chegadas e partidas — pontos de ônibus, estações de metrô e barcas nas cercanias do teatro — e interage com os transeuntes. Registros dessas intervenções passam depois a integrar "Penelopéia".

Perguntada sobre o maior desafio de dançar um mito, Raquel crava: "Buscar no corpo o que o mito desenhou, moldou nele, na história daquele corpo. Mexer com isso, recontar o mito, brigar com ele, arrancar ele do corpo, do gesto, deixar sair. A dança coloca a gente em estados físicos que mexem com a maneira que a gente pensa. A gente se mexe e o mundo balança junto", diz a atriz e pesquisadora.

Produzido por Marina Gadelha, com desenho de luz e técnica de cena assinados por Ricardo Vivian, Raquel contou com uma considerável interlocução na pesquisa cênica, incluindo Bianca Byington, Caio Riscado, Felipe Ribeiro, Luísa Buarque, Luisa Espíndola, Maria Palmeiro, Olívia Ferreira, Patrick Pessoa e Thierry Trémouroux. Na interlocução artística e no apoio à criação vem Renato Linhares, enquanto Eleonora Fabião entra no intercâmbio teórico do que Raquel define como uma "palestra-dançada".

"Eu quis dançar o Hades, as sereias, a Circe, a Calipso... É muito curioso que isso tenha se dado, eu fujo da Penélope e encarno a Circe. De lá pra cá e de cá pra lá, pra encontrar um lugar 'entre'. Tem uma pesquisa que eu desenvolvo há um tempo já com câmeras VHS por onde a gente olha o que tá sendo filmado, sabe? Depois, na pandemia, fiquei fazendo essas coisas online, com muita gente, no espetáculo isso virou um número de magia. E aí, pra juntar tudo num mesmo caldo, teve o mestrado com a orientação da Eleonora Fabião, onde teoria e prática andam juntas", explica Raquel. "Eu estudava atravessamentos entre teatro e performance, e fui fazendo performances, uma delas sigo fazendo, e isso também foi desenhando a performatividade do espetáculo, ajudando a criar dispositivos cênicos e dramatúrgicos."

SERVIÇO

PENELOPÉIA - UMA PALESTRA DANÇADA

Teatro Gláucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana) | De 16 a 30/9, quartas-feiras (20h)

Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)