Carpintaria poética
Há uma engenharia dramática, na qual os dramaturgos exibem suas habilidades para organizarem seus conflitos, diálogos e personagens, elementos que estruturam verdadeira obra teatral. Em "Doce Árido", Tairone Vale revela-se um expert na construção autoral, posicionando seu texto na galeria dos melhores do ano na cena carioca. Implementa uma reviravolta da narrativa, cuja inteligência cênica abarca e impacta a audiência. A violência contra a mulher, traumas, opressões, estabelecem uma engrenagem dramática que desagua em relações familiares conturbadas, sinalizando dores de um isolamento rural.
Um encontro de gerações debruça-se numa rotina árdua de trabalho, diante da miséria em que vivem, com mulheres sem perspectiva, na luta por alguma dignidade. A peça atenta-nos para o descaso com gente rústica que vive desassistida de conhecimento e serviços de saúde, configurando tragicidade por vezes patética, imprimindo humor angustiante.
O diretor articula um sustentáculo poético para sua viagem empírica e inóspita, suavizada por uma montagem sensível. Estipula silêncios aterradores que irrompem as vísceras, além de elaborar marcas que valorizam a dramaticidade. Um movimento aflitivo enquanto exaurem-se na feitura de doces gera um dos belos momentos da encenação, onde tachos aéreos permanecem acima das personagens, sufocando a própria existência. A cena em que a jovem Maria Lúcia revolta-se e destrói a mercadoria é outro acerto com efeito teatral.
As três intérpretes impressionam pelo timing que nunca se perde entre elas. Pri Helena institui força e carisma cativante. Mistura dor e potência, alternando ideias que parecem inconclusivas, manifestando extrema humanidade em sua Maria Antônia. A atriz possui um semblante que favorece a esfera dramática. Na primeira metade do espetáculo, Rebeca Figueiredo desenha contenção, já que sua Maria Lúcia encontra-se medicada. Na sequência toma as rédeas e brilha, costurando filigranas de interpretação em alto nível. A Maria Quitéria de Layla Paganini tem personalidade, expressando humor e sagacidade naquela áspera temática.
A carpintaria cenográfica de Cris Bourgeaiseau assombra e demarca sofrimento. Um platô desvela pobreza com porta e vidraças estilhaçadas, além de cordas vermelhas - como se artérias e veias estivessem expostas, escorando utensílio culinário. Em dado momento, destaca-se e toma vida, determinando atmosfera onírica repleta de apelo visual, como um navio que naufraga em terra firme e vidas afundam vagarosa e poeticamente. O figurino, da mesma, é simplório, adequadamente. A luz de Nitay Krishna trafega entre o luar e o sol diário que dá cansaço, mas não aquece a alma naquele inverno sombrio. A trilha de Laura Jannuzzi passeia entre a viola caipira e flauta corroborando o clima doloroso.
Em definição aristotélica, o teatro imita a vida no sentido de recriação e não de cópia literal. "Doce Árido" abusa disso com maestria!