O mundo em 2m²

Dobra Teatro celebra 15 anos trazendo de volta 'Hominus Brasilis', espetáculo que transforma corpos e vozes em cenário para uma viagem do Big Bang aos tempos atuais

Por

Confinados em espaço de 2m², os quatro atores se propõe a contar a história da humanidade em 'Hominus Brasilis'

Do Big Bang à internet, passando pelas grandes navegações, guerras mundiais, escravidão, ditadura e televisão. Contar essa história já seria tarefa ambiciosa com um palco inteiro à disposição. Em "Hominus Brasilis", quatro atores têm apenas dois metros quadrados. E nenhum cenário para ajudá-los.

É dessa limitação voluntária que nasce boa parte da graça do espetáculo que a Dobra Teatro traz novamente aos palcos cariocas a partir desta quarta-feira (9), no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá. A temporada, que segue até o dia 24, integra as comemorações pelos 15 anos da companhia e recupera justamente a montagem que inaugurou sua trajetória.

Diego de Abreu, Helena Marques, Mariana Fausto e Matheus Lima ocupam uma pequena plataforma e têm à disposição essencialmente duas ferramentas: corpo e voz. Eles se transformam em personagens, paisagens, acontecimentos e objetos enquanto produzem ao vivo a sonoplastia que acompanha essa corrida através de milhões de anos.

O ponto de partida está numa pergunta que acompanha a Dobra desde sua criação: até onde é possível contar uma história usando o corpo do ator? Em "Hominus Brasilis", ele precisa dar conta de quase tudo.

A viagem começa no nascimento do universo e logo ganha contornos mais terrenos. Grandes navegações, chegada dos portugueses ao Brasil e fim da escravidão entram na sucessão de imagens. Depois aparecem a expansão da imprensa, as guerras mundiais e as eras do cinema, do rádio e da televisão. A ditadura militar e outros episódios políticos e sociais conduzem a narrativa até as mudanças provocadas pelo avanço tecnológico.

Em vez de tentar reproduzir realisticamente cada período, a montagem condensa acontecimentos em imagens cênicas. O humor nasce muitas vezes do próprio descompasso entre a grandiosidade do episódio e a economia de recursos para representá-lo. Afinal, impérios podem surgir e desaparecer, guerras podem começar e terminar, mas ninguém ganha um centímetro a mais naquela plataforma.

A aparente simplicidade exige precisão. Movimento, gesto, ritmo e relação entre os intérpretes substituem boa parte dos elementos tradicionalmente utilizados para localizar o espectador no espaço e no tempo. O corpo pode ser personagem num instante e, logo depois, transformar-se em ambiente ou elemento da própria narrativa.

Foi essa pesquisa que levou "Hominus Brasilis" ao palco pela primeira vez em setembro de 2014, no Centro Cultural Justiça Federal. Desde então, o espetáculo ultrapassou 200 apresentações e chegou a aproximadamente 10 mil espectadores, acumulando seis temporadas no Rio e dez circuitos por diferentes regiões brasileiras.

A pequena plataforma também viajou bastante. Em 2016, chegou aos Estados Unidos para o Chicago Physical Festival. No ano seguinte, passou pelo FETI - Festival Efímero de Teatro Independiente, na Argentina, e pelo Beijing Comedy Week, na China. Em 2019, foi apresentada no FITA - Festival Internacional de Teatro do Alentejo, em Portugal.

O reconhecimento veio ainda no início dessa trajetória. A montagem recebeu indicação ao Prêmio Shell de Teatro de 2014 na categoria Melhor Direção e ao Prêmio Cesgranrio, na Categoria Especial, pelo estudo do espaço cênico desenvolvido justamente a partir da plataforma.

Mas a história do espetáculo começa antes de 2014 e se mistura à própria origem da Dobra.

Em 2011, Helena Marques e Matheus Lima foram contemplados com a Bolsa Funarte de Residências em Artes Cênicas e partiram para Londres, onde participaram do Professional Development Program da London International School of Performing Arts, a LISPA. Ao retornar ao Brasil, começaram a desenvolver a investigação sobre teatro físico que acabaria dando origem a "Hominus Brasilis". O trabalho teve posteriormente supervisão de cena de Julio Adrião.

Aquela experiência estabeleceu uma linha de pesquisa que atravessaria os 15 anos seguintes: transformar o ator em espaço, personagem, imagem e instrumento narrativo, fazendo da restrição de recursos uma possibilidade de invenção.

Vieram depois outros espetáculos. "A Menina e a Árvore", de 2018, conquistou os Prêmios CBTIJ de Melhor Iluminação e Melhor Preparação Corporal. "Vermelha" estreou em 2019 e, quatro anos depois, "Feio" recebeu o Prêmio Shell de Melhor Iluminação. Ao todo, a Dobra contabiliza dez indicações a prêmios como Shell, Cesgranrio, CBTIJ e Zilka Sallaberry.

O retorno a "Hominus Brasilis", portanto, tem algo de volta à origem. Quinze anos depois de iniciar sua pesquisa, a companhia reencontra o espetáculo que definiu boa parte de seu vocabulário cênico.

Quando se conta a história da humanidade sabemos que ela nunca termina. O mundo de 2026 já não é exatamente aquele diante do qual "Hominus Brasilis" estreou em 2014. Mas os quatro atores continuam com o mesmo desafio — fazê-lo caber, outra vez, em apenas dois metros quadrados.

SERVIÇO

HOMINUS BRASILIS

Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto (Rua Visconde da Silva, s/nº, ao lado do nº 292, Humaitá)

De 9 a 24/9, quartas e quintas (20h) | Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)