Duas vezes Beth Zalcman, num só templo

Atriz faz do Carlos Gomes, no Centro, espaço para investigar as forças femininas com as peças 'Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio' e 'Ânima', encarnado mulheres avessas ao sexismo

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Beth Zalcman em 'Ânima'

Há palcos que servem apenas como chão de fábrica para estrelas brilharem... e há o Carlos Gomes. Ali, pela memória acumulada em suas tábuas, quando as cortinas se abrem, arma-se um templo. Um templo de reza a Eurípedes, Aristófanes, William Shakespeare & cia, onde Beth Zalcman baterá cabeça para as entidades das artes cênicas, a partir desta quinta, ocupando aquele solo sagrado com dois monólogos. Ao longo de quatro noites consecutivas, ela dá vida a diferentes mulheres separadas por séculos, geografias e pensamentos.

Nos dias 3 e 4, às 19h, a atriz entra em erupção com seu consagrado "Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio"; no sábado (5) e no domingo (6), traz aquela arena para si com "Ânima". Ambos têm texto da filósofa Lúcia Helena Galvão e encenação de Luiz Antônio Rocha.

"Eu sempre 'namorei' o palco do Teatro Carlos Gomes, desejando subir lá. Sempre imaginei este momento neste ponto de referência da cultura do Rio de Janeiro, por onde passaram tantas peças e artistas maravilhosos. E agora chego eu, acompanhada por mulheres que merecem demais esse espaço", explica Beth. "Esse teatro tem tudo a ver com Blavatsky: pela imponência, pela grandiosidade, por transbordar sabedoria e pela sua localização — um lugar central e democrático. Depois vem 'Ânima', trazendo outras figuras que marcaram o curso da história da humanidade; mulheres determinadas, com total clareza de seus propósitos, que trazem a potência do feminino e da arte. Estou vivendo a junção perfeita entre o desejo e a realização. Sinto-me muito animada e orgulhosa de ocupar esse palco — e, diga-se de passagem, muitíssimo bem acompanhada."

Lucas Pacheco/Divulgação - Beth Zalcman em 'Helena Blavatsky, a voz do silêncio'

Primeiro ato dessa ocupação, "Helena Blavatsky, A Voz do Silêncio" chega ao Carlos Gomes depois de contabilizar umas 225 apresentações, para cerca de 250 mil espectadores, pelo país adentro. Beth encarna a pensadora russa Helena Blavatsky (1831-1891) em seu último dia de vida, num quarto em Londres, de onde revisita viagens, descobertas e escolhas de uma existência dedicada à investigação filosófica e espiritual. Fundadora da Sociedade Teosófica ao lado de Henry Steel Olcott, Blavatsky é recuperada pela dramaturgia para além dos estereótipos ligados ao ocultismo, como uma intelectual que enfrentou as limitações impostas ao feminino no século XIX para perseguir conhecimento. O trabalho rendeu a Beth o Prêmio CENYM de Melhor Atriz em 2023 e exige dela uma entrega que não admite piloto automático, mesmo depois de centenas de sessões.

"A gente nunca sobe sozinha ao palco, mesmo em um monólogo. Eu contraceno, por exemplo, com o Gabriel Oliveira, que opera a luz e o som das duas peças. A gente joga junto, é uma verdadeira sinfonia — uma entrada de luz perfeita, no timing certo do jogo teatral, é algo maravilhoso. Cresci demais como atriz nesses dois monólogos devido à profundidade do texto, que me leva a um mergulho em uma imensidão de possibilidades. As personagens ganham força e verdade na mesma proporção em que cresço internamente aprendendo com elas", diz Beth. "Sou muito disciplinada com a minha preparação: preciso ativar o corpo, a voz e as sensações, pois sei que a cada apresentação entro em um labirinto do qual não sei como vou sair do outro lado. Tenho que entrar sem amarras e sem certezas, em estado de presença total, deixando que elas me levem. E a plateia! Como é incrível senti-los respirando junto, 'escutando a voz do silêncio' e sendo tocados pelo intangível da magia do teatro. É bom demais fazer arte."

Sem arredar pé do Carlos Gomes, Beth troca de universo no sábado e assume "Ânima", peça escrita especialmente para ela por Lúcia Helena Galvão. Uma tecelã conduz a atriz pelo pensamento e pelas experiências de seis mulheres que desafiaram as convenções de seus tempos: Simone Weil, Joana d'Arc, Helena Blavatsky, Harriet Tubman, Marguerite Porete e Hipátia de Alexandria. A encenação faz do ato de tecer uma metáfora para aproximar personagens que enfrentaram perseguições, escravidão, guerras, dogmas religiosos e estruturas de poder, ligadas pela determinação de agir sobre o mundo em vez de simplesmente aceitá-lo.

Segundo Beth, é justamente nessa multiplicidade que o espetáculo encontra uma ideia de feminino que dispensa antagonismos fáceis. "Começo 'Ânima' citando uma frase de uma filósofa que resume todo o meu aprendizado sobre a vida e sobre a força do feminino: 'Desde sempre, para sempre, toda mulher tem parentesco com a primeira estrela brilhante que levou luz ao azul profundo do céu'. Lúcia Helena Galvão escolheu trazer mulheres que influenciaram a sua própria trajetória e que, consequentemente, impactam muito a minha. São mulheres que resgatam o valor do ato de viver e do entregar-se, sem hesitação, ao próprio propósito. O feminino aqui é apresentado não num lugar de disputa, mas de sabedoria, reflexão, sensibilidade, luta e criação. Todas tiveram vidas duríssimas e mortes trágicas. Foram grandes guerreiras: umas com a espada, como Joana d'Arc; outras com as palavras, com a ação, com a coragem e com a atitude — sempre em prol da humanidade".

A atriz conta que, durante uma apresentação em Porto Alegre, ao final de "Ânima", um homem se levantou e perguntou: "O que nós, homens, acreditamos ter de tão superior às mulheres, a ponto de eliminá-las ao nosso bel-prazer e julgamento?".

"Fica a reflexão", provoca Beth, que vai embarcar numa maratona de interpretação.

SERVIÇO

HELENA BLAVATSKY, A VOZ DO SILÊNCIO

Teatro Municipal Carlos Gomes (Praça Tiradentes, s/nº - Centro)

3 e 4/9, às 19h.

ÂNIMA

5 e 6, às 17h.

Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)