Macunaíma vive
Oficina Estilhaça estreia no MUHCAB releitura imersiva do romance de Mário de Andrade, com vários corpos ocupando o lugar do 'herói sem nenhum caráter'
A Oficina Estilhaça estreia nesta sexta-feira (28), no Museu da História e Cultura Afro-Brasileira (MUHCAB), na Gamboa, uma releitura do célebre romance que Mário de Andrade publicou em 1928. Tirar Macunaíma da estante e espalhar sua história pelos espaços de um museu dedicado à memória afro-brasileira nos leva a perguntar quem cabe na imagem de país que o modernismo ajudou a inventar?
Dirigida por Matheus Raineri e Mari Mello, a montagem é o segundo ato da Trilogia Antropofágica da Estilhaça, iniciada em 2025 com "Encruzilhadas". O vínculo entre os espetáculos é devorar uma obra, fazê-la passar pelo corpo e devolvê-la transformada.
O herói de Andrade, célebre por não ter "nenhum caráter", já era uma criatura de muitas vozes, linguagens e metamorfoses: misturava mito indígena, oralidade, folclore, cidade e paródia numa viagem que nunca ofereceu uma resposta pacífica sobre o Brasil. A nova encenação radicaliza esse princípio. Em vez de um protagonista, surgem vários Macunaímas, vividos por um elenco de 14 atores. São corpos que coexistem, se atravessam e se contradizem, deslocando a figura do herói para um campo mais plural — e mais conflituoso.
A peça se propõe a ocupar o museu junto do público, convertendo o deslocamento pelos ambientes em parte da dramaturgia. A plateia caminha e escuta uma obra que aproxima o livro das experiências periféricas, urbanas e populares do presente. "Macunaíma" sobrevive porque nunca foi uma figura confortável. Sua instabilidade está no incrustada no DNA brasileiro, múltiplo, diverso e, por que não, contraditório.
SERVIÇO
MACUNAÍMA
Museu da História e Cultura Afro-Brasileira - MUHCAB (Rua Pedro Ernesto, 80, Gamboa)
De 28/8 a 11/9, às sextas-feiras (19h30) | Ingressos: R$ 30