A voz dos anônimos de Belo Monte

Vencedora do APCA de Melhor Direção, Cia. do Tijolo encena 'Restinga de Canudos, um mergulho nas histórias por trás do massacre no sertão

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A premiada Cia. do Tijolo (SP) está no Rio em curta temporada com 'Restinga de Canudos'

As ruínas de Canudos dormem sob as águas do açude de Cocorobó, no sertão baiano, desde que o governo decidiu alagar o que restou do arraial massacrado entre 1896 e 1897. Em períodos de seca extrema, como aconteceu em 2013, partes da antiga igreja reaparecem — fantasma de uma comunidade que chegou a reunir mais de 20 mil mil pessoas e foi dizimada em quatro expedições militares da recém-instalada República.

É dessa submersão, literal e simbólica, que nasce "Restinga de Canudos", espetáculo da Cia. do Tijolo, de São Paulo, que chega à Arena do Sesc Copacabana com temporada até 13 de setembro. A montagem, vencedora do Prêmio APCA de Melhor Direção em 2025, desloca o foco do bombardeio e da figura de Antônio Conselheiro para o cotidiano de quem construía em Belo Monte uma forma própria de existência.

O diretor e dramaturgo Dinho Lima Flor, pernambucano de Tacimbó que atua na companhia desde 2008, assina o texto ao lado de Rodrigo Mercadante, fundador do grupo. A cena é conduzida por duas professoras, figuras que costuram a narrativa e sinalizam o papel da educação naquela comunidade — não por acaso, a Cia. do Tijolo bebe na fonte do pensamento de Paulo Freire, de quem empresta o nome: "tijolo" era uma das palavras geradoras usadas pelo educador na alfabetização de operários da construção civil.

No palco, vozes de agricultores, indígenas, beatos, cantadores e poetas populares compõem um mosaico que recria uma Canudos viva antes de sua destruição. A música original de Jonathan Silva percorre a dramaturgia como elemento estruturante, não como adorno. O elenco reúne artistas de diferentes regiões do país, entre eles Odília Nunes, Artur Mattar, Jaque da Silva e outros treze nomes. A encenação articula teatro, música ao vivo e cultura popular, estabelecendo diálogo direto com questões que continuam atravessando o Brasil — violência de Estado, desigualdade, luta por direitos.

Como observa Dinho Lima Flor, "é essa memória coletiva que ainda pode inspirar esperança e resistência no presente". A frase resume a operação dramatúrgica do espetáculo: em vez do elogio à dor, a reescrita de um passado onde houve organização comunitária, invenção política e vida — antes que tudo virasse ruína submersa. Fundada em 2008, a Cia. do Tijolo já havia conquistado o Prêmio Shell de Música com "Concerto de Ispinho e Fulô" e o de Melhor Cenário com "Cantata para um Bastidor de Utopias". Em "Restinga de Canudos", dá mais um passo na reinvestigação de episódios fundadores da identidade brasileira.

O espetáculo é, em certo sentido, um mergulho nas águas de Cocorobó. Recupera o que foi soterrado — não apenas em termos físicos, mas de memória. E devolve ao palco vozes que a história oficial calou.

SERVIÇO

RESTINGA DE CANUDOS

Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)

Até 13/9, quintas e sextas (20h) | sábados e domingos (18h)

Ingressos: R$ 40, R$ 20 (meia), R$ 36 (conveniados), R$ 31 (conveniados empresarial), R$ 28 (sócio Sesc) e grátis (PCG)