Balbúrdia preconceituosa

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A direção de Pia Manfroni é correta: delibera com parcimônia a balbúrdia que a dramaturgia lhe oferece

Visionário, João Bethencourt, um dos mais renomados comediógrafos e tradutores brasileiros, com inúmeros sucessos como a primeira montagem de "A Gaiola das Loucas, "O Dia Que Raptaram o Papa", um dos textos mais encenados no exterior, recebe nova montagem de "O Filho das Mães", que muitos conhecem como "Circuncisão em Nova York".

Com produção da Guilherme Delrio Realizações Artísticas, a nova montagem opta pelo título original. Mestre na composição de quiprocós, o autor arquiteta com sapiência uma de suas melhores comédias de costume.

Ao abordar a temática sobre relações homoafetivas há duas décadas, o escritor mantém sua obra atualizada, já que no momento muitas famílias vivenciam a circunstância. Uma família judaica conservadora, em Nova York, encontra-se perturbada diante da revelação de sua filha ao revelar sua gravidez por inseminação artificial, ao lado de sua esposa. Preconceito, tradição, mentiras, sentimentos truncados elaboram tumulto, pelo qual parentela e amigos são envolvidos. Até todas as verdades virem à tona, as personagens são abarcadas por um turbilhão de emoções, desvelando comicidade na medida certa.

A direção de Pia Manfroni é correta, sem alçar grandes voos. Delibera com parcimônia a balbúrdia que a dramaturgia lhe oferece, estabelecendo marcas que propiciam o bom andamento cômico.

Além do ótimo material dramatúrgico, o jogo estruturado entre Sergio Fonta e Jalusa Barcellos é o melhor que a montagem proporciona. O ator prioriza uma atuação discreta, porém firme, austera, como deve ser aquele chefe de família tradicional, mas concomitantemente imbuído de humor - diante de variações, verte-se em refinada jocosidade. A cena diante do amigo Samuel em que, perplexo e incrédulo profere: "Não seja idiota", denuncia sua expertise como intérprete. Por outro lado, a atriz tarimbada, vai na contramão do colega: abusa das tintas, desenhando com argúcia sua Sarah, desiquilibrando-se, o que torna a personagem atraente e divertida. O casal equilibra a temperatura adequada para a desenvoltura cênica. Carlos Loffler brilha ao brincar em defender o outro avô, cuja teatralidade instaura-se nas interpretações de Celso André e Duio Botta, que investe contidamente no seu delicado Ralph. Menos teatral está Narjara Turetta, que poderia cuidar de sua emissão vocal. E Rose Scalco é inexpressiva.

O cenário e figurino de Augusto Pessoa são realistas, apropriadamente, realçando o vestido roxo de Sarah, que imprime beleza e teatralidade, durante a aliança de circuncisão. A iluminação de Juliana Amorim é clássica, sustenta quase todo o tempo aberta, focando-se às narrações de Miriam e aos telefonemas de Abraão e Sarah, já que estão em locais longínquos.

"O Filho das Mães" agrada o público, além de fazer rir propicia-nos a reflexão. O amor pode e deve permanecer acima de quaisquer conceitos, nos quais muitos arraigaram-se durante toda a vida.

SERVIÇO

O FILHO DAS MÃES

Teatro Laura Alvim (Av. Vieira Souto, 176 — Ipanema)

Até 26/8, terças e quartas (20h)

Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia)