Inexorabilidade conjugal
Cada vez mais Gustavo Pinheiro conquista notoriedade no panorama teatral. "Alair", "A Tropa", "A Lista", "Uma Vida de Amizade", são alguns dos espetáculos com textos urdidos pelo o autor. "Dois de Nós", corrobora o sucesso e a forma pela qual o dramaturgo investe em temas aproximando o espectador, como a derrocada de situações e ferramentas ultrapassadas, verticalizando-se sobre o esfacelamento da vida conjugal. Um embate geracional é estabelecido a partir da memória de um casal ao interagirem com eles próprios no passado, mas a obra vai além e inverte paradigmas. Pedro Paulo e Maria Helena, na faixa dos 70 anos, encontram o seu duplo, aos 40, onde a modernidade depara-se com os maduros, enquanto os mais jovens, paradoxalmente, tornam-se obsoletos. O escritor acerta em configurar o espelho daquelas personagens, refletindo um mosaico de emoções, nas quais todos nós e não apenas dois de nós, somos confrontados a inexorabilidade temporal. A comédia é dramática e não envereda num viés cômico todo o tempo, costurando episódios dramáticos, que auxiliam na vulnerabilidade atravessada por inúmeros casais.
Um dos expoentes da direção teatral, José Possi Neto esculpe marcas evidenciando características físicas e comportamentais das duplas, embora o resultado venha a ser mais aparente nos intérpretes masculinos. Há uma desigualdade na interpretação das atrizes que desestrutura e por vezes altera o diálogo com a dramaturgia, além do condutor sublinhar conceitos reiterados pelo o autor, engessando a desenvoltura do espetáculo.
Ícone da cena nacional, Antônio Fagundes desconstrói-se, emociona, diverte, revelando as angústias e tropeços que a vida impôs à personagem, fabricando o timing perfeito para seduzir a audiência, imbuído de uma espontaneidade que sua expressiva carreira lhe proporcionou. Veterana, Christiane Torloni - que possui ótima sinergia com José Possi Neto, imprime força, elegância e carisma, desenha a sagacidade de sua Maria Helena. Por outro lado, em alguns momentos a atriz exterioriza-se. Um dos pontos altos do espetáculo é a química entre Fagundes e Thiago Fragoso, num jogo coerente e potente, já que são os mesmos, apesar de épocas distintas. O ator mais jovem realça uma corporeidade, instaurando vivacidade e uma certa ingenuidade, que por sua vez desagua em seu colega, ainda mais experiente, um cansaço, a desilusão, mas ainda assim, um frescor. E Alexandra Martins, com pouca teatralidade, não afina-se com que Torloni elabora.
Fábio Namatame ambienta um hotel com mobiliário realista, além de cortinas translúcidas, facilitando a projeção de folhagens, que valorizam a cenografia. O figurino, do mesmo, reproduz com eficiência às personagens. Um azul poético persiste na luz de Wagner Freire, demarcando reminiscências.
"Dois de Nós" festeja os 60 anos de Fagundes no ofício e os 50 de Torloni em produção com equipe de qualidade e que diverte o público.