Inexorabilidade conjugal

Por por Cláudio Handrey

Cada vez mais Gustavo Pinheiro conquista notoriedade no panorama teatral. "Alair", "A Tropa", "A Lista", "Uma Vida de Amizade", são alguns dos espetáculos com textos urdidos pelo o autor. "Dois de Nós", corrobora o sucesso e a forma pela qual o dramaturgo investe em temas aproximando o espectador, como a derrocada de situações e ferramentas ultrapassadas, verticalizando-se sobre o esfacelamento da vida conjugal. Um embate geracional é estabelecido a partir da memória de um casal ao interagirem com eles próprios no passado, mas a obra vai além e inverte paradigmas. Pedro Paulo e Maria Helena, na faixa dos 70 anos, encontram o seu duplo, aos 40, onde a modernidade depara-se com os maduros, enquanto os mais jovens, paradoxalmente, tornam-se obsoletos. O escritor acerta em configurar o espelho daquelas personagens, refletindo um mosaico de emoções, nas quais todos nós e não apenas dois de nós, somos confrontados a inexorabilidade temporal. A comédia é dramática e não envereda num viés cômico todo o tempo, costurando episódios dramáticos, que auxiliam na vulnerabilidade atravessada por inúmeros casais.

Um dos expoentes da direção teatral, José Possi Neto esculpe marcas evidenciando características físicas e comportamentais das duplas, embora o resultado venha a ser mais aparente nos intérpretes masculinos. Há uma desigualdade na interpretação das atrizes que desestrutura e por vezes altera o diálogo com a dramaturgia, além do condutor sublinhar conceitos reiterados pelo o autor, engessando a desenvoltura do espetáculo.

Ícone da cena nacional, Antônio Fagundes desconstrói-se, emociona, diverte, revelando as angústias e tropeços que a vida impôs à personagem, fabricando o timing perfeito para seduzir a audiência, imbuído de uma espontaneidade que sua expressiva carreira lhe proporcionou. Veterana, Christiane Torloni - que possui ótima sinergia com José Possi Neto, imprime força, elegância e carisma, desenha a sagacidade de sua Maria Helena. Por outro lado, em alguns momentos a atriz exterioriza-se. Um dos pontos altos do espetáculo é a química entre Fagundes e Thiago Fragoso, num jogo coerente e potente, já que são os mesmos, apesar de épocas distintas. O ator mais jovem realça uma corporeidade, instaurando vivacidade e uma certa ingenuidade, que por sua vez desagua em seu colega, ainda mais experiente, um cansaço, a desilusão, mas ainda assim, um frescor. E Alexandra Martins, com pouca teatralidade, não afina-se com que Torloni elabora.

Fábio Namatame ambienta um hotel com mobiliário realista, além de cortinas translúcidas, facilitando a projeção de folhagens, que valorizam a cenografia. O figurino, do mesmo, reproduz com eficiência às personagens. Um azul poético persiste na luz de Wagner Freire, demarcando reminiscências.

"Dois de Nós" festeja os 60 anos de Fagundes no ofício e os 50 de Torloni em produção com equipe de qualidade e que diverte o público.