'Atrai-me o ser humano que respira fundo e pensa o que fazer diante da vida que o devora'
Rodrigo Fonseca Especial para o Correio da Manhã
Onde geral só vê bola rolando, Fernando Philbert enxerga teatro. Não à toa, fez das vivências do craque de futebol e comentarista Walter Casagrande Jr. uma autobiografia stand up que sacudiu o Festival de Curitiba, entre março e abril. Onde geral vê páginas de livro, esse diretor teatral vê teatro. Não por acaso fez João Ubaldo Ribeiro (1941-2014) se transfigurar sob as ribaltas, ao dar teatralidade aos parágrafos de "Diário do Farol", numa troca com o ator Thelmo Fernandes. Militar de Marinha, que trocou o Almirante Tamandaré por Eurípedes, Philbert zarpou de Porto Alegre (seu porto natal) e atracou no Rio de Janeiro em 1997, torpedeando cariocas com suas caravelas cênicas, que nadam pelos mares mais diversos, do drama e da tragédia. O trabalho atual dele como encenador é o monólogo "Selvagem", em cartaz até 4 de setembro no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana.
A base dramatúrgica é a prosa homônima da autora Marília Passos, que foi finalista do troféu Jabuti, em 2023. O quelônio mais famoso de nossa literatura encantou-se com a forma de Marília narrar transformações laborais, pessoais e existenciais da obstetra Mariana, que, desencantada com seu casamento, resolve se candidatar a uma vaga dos Médicos Sem Fronteira no Sudão do Sul, um país abalado pela guerra civil. Nessa trágica realidade, ela se apaixona por Nino, um médico brilhante e indomável, que lhe mostra uma forma diferente de olhar para o mundo. Philbert dirige uma atriz em estado de graça, Gabriela Rosas, para converter o fraseado da escritora em cenas que entrem na cabeça e no coração da gente até fazerem ninho... darem cria... e revoarem.
Esse ciclo evolutivo aí é o mote da conversa a seguir, na qual Philbert - um artista que, virou, mexeu, tá encenando coisa nova... e boa - avalia por que águas navegam nossas artes cênicas.
"Selvagem" é mais um degrau de seu repertório de escolhas teatrais, que é do mais variado, mas, ao mesmo tempo, dos mais sólidos, hoje em os nossos palcos. Como administrar essa pluralidade, ou seja, onde, em trabalhos tão distintos, imprime-se o seu olhar?
Fernando Philbert: O arcabouço do peito de um contador de histórias ao vento das sincronicidades. Talvez more aqui alguma tradução do diretor que venho descobrindo e aprendendo. "Selvagem" é que escolheu ser contada. A vontade da atriz Gabriela Rosas em estar no palco sinceramente me escolheu e sou feliz com ela. Conto as histórias que me escolhem.
Qual foi o teatro que te formou? De que maneira esse teatro (ou seja, esse arcabouço de pessoas vistas e deglutidas) guia suas escolhas hoje?
Eu me formei no entalhe da pedra nas salas de ensaios: assistente de Domingos Oliveira, Gilberto Gawronski, Lázaro Ramos, Fernando Guerreiro, Márcio Meirelles e aprendiz no estúdio de Jorge Fernando... E tem o meu mestre/amigo/pai por duas décadas Aderbal Freire-Filho. Consegui aprender alguns significados desta fogueira que é uma peça teatral. Conto histórias de João Ubaldo Ribeiro a Matéi Visniec, passando por Marcelino Freire e Gustavo Pinheiro.
Há um coro na mídia... e na boca do povo... a dizer: "Os teatros estão cheios... sempre". Isso desde a pandemia. Há realmente uma retomada de público?
Sim, os teatros estão mais vivos. Vejo o reencantamento do público em ver ao vivo atrizes e atores sendo personagens incríveis. Vendo belezas, efeitos e mágicas. Estar junto de gente rindo e chorando no sopro de uma ilusão é uma experiência única. O teatro oferece algo que nunca mais será igual e, assim, acredito que se oferece este sentido de que a pessoa que vai ao teatro se sente em uma noite rara, só para ela.
Mas essa retomada vem sendo respaldada, de alguma forma, pela edificação de novas veredas estéticas para os palcos?
Não sei o que há de novo. Realmente este "novo" no teatro, esta antropofagia de novos nomes e tendências, não é teatro, é loja de departamentos. De verdade, as lojas passam e o palco e a atriz ali contando uma história estão ali nos últimos dois mil anos e ficará mais uns dez, doze mil anos...
"Selvagem" é investigação de personagem. Seus espetáculos, em geral, o são. Mas essas pessoas sobre quem você fala são pessoas que, alquebradas no âmago, parecem buscar uma saída, a expressão de uma esperança, ainda que pequena. Qual seria essa antropologia demasiadamente humana das gentes que protagonizam o seu teatro? Que humano te atrai?
Atrai-me o ser humano que respira fundo e pensa o que fazer diante da vida que o devora. Isto é vital para o teatro que vou pensando e buscando, chegar perto e, quando vou chegando, ele vai se afastando e vou caminhando e caminhando, e ele se afastando, e é por isso que faço.
No teu fazer prolífico, o que vem pela frente para os próximos meses?
Vou voltar com "Todas as coisas maravilhosas", com o Kiko Mascarenhas, em outubro, em São Paulo. Estou com Lucas Drumond estruturando o projeto "Todos os meus filhos", de Arthur Miller, para 2027. Tenho desejo de montar "A Palavra Progresso Na Boca De Minha Mãe Soava Terrivelmente Falsa", de Matéi Visniec. Quero seguir com "Na Marca do Pênalti", solo autobiográfico com o ex-jogador Casagrande; com "Uma vida de amizade"; com "Três Mulheres altas"; bem como "Nefelibato", "Eu sou um Hamlet", com Rodrigo França, "Contos Negreiros do Brasil" e montar um texto incrível de Stefanie Neukirch, autora uruguaia: "Barrabás: Histórias de um Cachorro". Também quero adaptar "O Poço dos Milagres", de Carlos Nejar.
Serviço
"Selvagem"
Temporada: de 13 de agosto a 4 de setembro de 2026
Dias e horários: quintas e sextas-feiras, às 20h
Teatro Gláucio Gill: Praça Cardeal Arcoverde, s/nº, Copacabana, Rio de Janeiro.
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada)
Lotação: 150 pessoas / Duração: 1h15