Fraturas familiares em modo global

Dramaturgia do aclamado Florian Zeller, 'O Filho' chega aos palcos cariocas com Gabriel Braga Nunes, Maria Flor e o jovem Andreas Trotta

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Ofrancês Florian Zeller costuma dizer que não escreve para agradar. "Não escrevo o que as pessoas gostam, mas o que elas poderiam gostar", repete o autor que, aos 46 anos, já foi chamado de "o dramaturgo mais emocionante de nossa época" pelo The Times. Isso antes mesmo de adaptar para o cinema "O Pai" (2020), filme que lhe rendeu o Oscar de melhor roteiro adaptado ao lado de Christopher Hampton, com Anthony Hopkins entregando uma das atuações mais devastadoras de sua carreira como um homem que perde o sentido de si mesmo.

"O Pai", encenado este ano no Brasil com Fulvio Stefanini no papel-título, integra uma trilogia os espetáculos "A Mãe" e "O Filho" que observa essas figuras familiares sob prismas bem particulares. Se em "O Pai" o centro era a demência senil, e em "A Mãe", a angústia da maturidade, "O Filho" volta o foco para a depressão adolescente, uma doença invisível.

Nicolas tem 16 anos, parou de frequentar a escola, não vê sentido em nada. Filho de pais separados, deixa a casa da mãe para morar com o pai, numa tentativa de recomeço que revela sofrimento e incompreensão. A peça, montada em mais de 20 países e adaptada para o cinema em 2022 com Hugh Jackman e Laura Dern, chega agora ao Rio com estreia nesta quinta-feira (13) no Teatro Fernanda Montenegro, no Copacabana Palace, sob direção de Leo Stefanini.

O encenador pontua que a chegada de "O Filho" coroa um percurso iniado por ele em 2018, quando conheceu o texto e decidiu que um dia o montaria. O caminho foi aberto pelo sucesso estrondoso de "O Pai", vista por mais de 120 mil espectadores no país e que rendeu a Fúlvio Stefanini — pai de Leo — o Prêmio Shell de melhor ator. O próprio Florian Zeller reconheceu o mérito da montagem brasileira, parabenizando a equipe em suas redes sociais. "Graças ao sucesso de 'O Pai', reconhecido pelo próprio Florian, foi muito legal podermos trazer 'O Filho', que também ambienta esse conturbado universo das relações familiares", revela o diretor.

Gabriel Braga Nunes assume o papel do pai — o homem que se vê diante da impossibilidade de proteger o filho da própria mente. "É uma peça contemporânea e necessária", destaca. Para ele, a obra também interpela a masculinidade e a dificuldade dos homens em lidar com a própria vulnerabilidade emocional. "Falta a nós, homens, mais escuta, mais afeto, mais atenção", avalia Braga Nunes, que enxerga na peça um mecanismo de identificação imediata: "É um espetáculo que faz todo mundo repensar a sua família, até quem não tem filho."

Maria Flor assume o papel da mãe — Anne, a mulher que vê o filho desabar sem conseguir detê-lo. Nas sessões de domingo. Mãe de Vicente, de 4 anos, Maria Flor reconhece que a maternidade redimensionou sua relação com o texto. "Acho que qualquer mãe que vê seu filho assim, sofre, se desespera. Como mãe, é uma experiência dolorosa ter que experimentar essa angústia. Mas como atriz, é um exercício bom visitar esses lugares emocionais. Acredito que o teatro, a arte, tem esse objetivo: destacar, iluminar assuntos difíceis e que precisam da nossa atenção", comenta.

A atriz observa que o debate sobre saúde mental está na ordem do dia. "O sofrimento psíquico se tornou algo comum, que acontece com todos nós. Não é mais um tabu, não é frescura, é real", argumenta.

"A depressão em adolescentes é tema fundamental na reflexão sobre nossa sociedade atual. Não faltam dados que comprovam o aumento exponencial de casos, em todas as classes sociais, em grande parte dos países do mundo", reforça Leo Stefanini.

Zeller, que começou como romancista — seu terceiro romance, "A Fascinação do Mal", recebeu o Prix Interallié e foi indicado ao Goncourt em 2004 —, constrói suas cenas entre a palavra e silêncios reveladores. A montagem brasileira, avisa Stefanini, opta por uma estética que ele define como "close". "O público vai acompanhar um espetáculo em close, valorizando cada detalhe da trama através de seus olhares e expressões. Neste sentido, não há pirotecnia na cena. O cenário, a luz e a trilha seguem a sinteticidade proposta pelo texto", explica.

SERVIÇO

O FILHO

Teatro Fernanda Montenegro (Copacabana Palace - Av. Nossa Senhora de Copacabana, 261)

De 13/8 a 13/9, quinta a sábado (20h) e domingos (18h)

Ingressos entre R$ 100 e R$ 50 (meia) e R$ 150 e R$ 75 (meia)