Cinema em tela suspensa
Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF nega cancelamento ou adiamento da 59ª edição do tradicional Festival de Brasília
Reynaldo Rodrigues
Arealização da 59ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, prevista para ocorrer em pouco mais de 1 mês, ainda não está confirmada. O evento depende da liberação de recursos públicos e a equipe responsável pela organização, formada por mais de 40 profissionais, ainda não recebeu pelos serviços prestados. O atraso também afeta o funcionamento do Cine Brasília, espaço que tradicionalmente recebe parte da programação do festival.
Em nota enviada ao Correio da Manhã, a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Distrito Federal informou que não existe, até o momento, decisão oficial sobre o cancelamento ou adiamento da edição deste ano. Segundo a pasta, o governo acompanha a situação e mantém diálogo com a organização do festival e com as áreas responsáveis pela análise orçamentária e financeira do Governo do Distrito Federal.
A Secretaria reconheceu o atraso nos pagamentos e informou que o processo para a liberação dos recursos está em tramitação. A definição sobre a realização da 59ª edição deverá ocorrer após a conclusão das avaliações em andamento. Qualquer alteração no planejamento, segundo o órgão, será comunicada oficialmente.
A indefinição ocorre em um período de preparação para o evento, que envolve empresas e trabalhadores de diferentes áreas do audiovisual. A organização depende de serviços ligados à produção, programação, divulgação, estrutura e operação das atividades. Sem a regularização dos pagamentos e a confirmação dos recursos, profissionais e empresas contratados enfrentam dificuldades para definir cronogramas e compromissos relacionados ao festival.
Efeito dominó
O cenário também alcança o Cine Brasília. Em julho, a administração do espaço informou que a falta de recursos comprometia o pagamento de funcionários e fornecedores e poderia afetar as atividades do cinema. A unidade é um dos principais equipamentos culturais do Distrito Federal e tem relação histórica com o festival.
Projetado por Oscar Niemeyer e inaugurado em 1960, o Cine Brasília integra o conjunto urbanístico da capital federal, reconhecido como Patrimônio Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) desde 1987. O cinema é voltado à exibição de produções audiovisuais e recebe anualmente atividades do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A situação do festival preocupa profissionais do setor audiovisual, que apontam possíveis consequências para uma cadeia de trabalhadores e empresas que organiza suas atividades considerando o calendário do evento. Para Tiago de Aragão, diretor Centro-Oeste da Associação das Produtoras Independentes do Audiovisual Brasileiro (API), o impasse não se limita à realização da 59ª edição.
Segundo Aragão, o caso faz parte de um cenário de dificuldades que atinge projetos, trabalhadores e equipamentos culturais do Distrito Federal. O diretor relacionou os problemas enfrentados pelo setor à insegurança provocada pelo envolvimento do Governo do Distrito Federal, por meio do Banco de Brasília (BRB), com o Banco Master.
"A situação do Festival de Brasília é sintoma de um problema maior que afeta todo o Distrito Federal. Falando especificamente da cultura, estamos vendo projetos, trabalhadores, equipamentos culturais e público pagando uma conta que não é nossa. O envolvimento do GDF, via BRB, com o Banco Master criou grande insegurança jurídica e imprevisibilidade para o nosso setor", afirmou.
Na avaliação do diretor, um eventual adiamento ou cancelamento da 59ª edição teria impacto sobre centenas de profissionais e produtoras que organizaram suas atividades levando em consideração a participação no festival. O evento também é utilizado como espaço para circulação e lançamento de produções audiovisuais, o que amplia os efeitos de uma possível mudança no calendário.
"Cancelar ou adiar o Festival de Brasília vai impactar centenas de profissionais e produtoras que organizaram sua temporada de trabalho e lançamentos para participar do evento. O GDF não honrar a realização do festival mais tradicional do país será uma mancha na história do evento, que só não foi realizado em tempos de ditadura", disse Aragão.
O diretor também citou dificuldades relacionadas a outros mecanismos de financiamento cultural. Entre eles estão projetos contemplados pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), que, segundo ele, ainda aguardam pagamentos.
Outro ponto mencionado é a contrapartida do Distrito Federal nos Arranjos Regionais. De acordo com Aragão, o não cumprimento desse compromisso pode resultar na perda de R$ 30 milhões em recursos federais destinados ao setor cultural.
"Já é tarde, mas ainda estamos em tempo de resolver essa situação. Não apenas a do Festival de Brasília, mas também a de projetos que não foram pagos, além da contrapartida dos Arranjos Regionais, que, se não honradas, fará com que o DF deixe de receber os recursos federais, dinheiro esse que seria muito bem-vindo em tempo de crise", concluiu.
A Secretaria de Cultura e Economia Criativa informou ainda que reconhece a importância histórica e cultural do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro e que a realização da edição de 2026 continua em análise.