O incômodo em cena

2º Festival de Teatro do Rio chega à sua última semana com quatro montagens perturbadoras no palco do Teatro Total Energies

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OFestival de Teatro do Rio entra em sua última semana ocupando o Teatro TotalEnergies, na Glória. A edição repete a fórmula de estreia, em 2025: apresentar montagens que impactaram a cena teatral recente, debater a formação de novas plateias e fomentar o setor.

Mas é na reta final que a curadoria mostra sua aposta mais clara — e talvez mais perturbadora. Em vez de fechar com celebração, o festival escolhe encerrar com Samuel Beckett, talvez o autor mais incômodo da dramaturgia ocidental e, de quabra, cercá-lo de três produções da mostra Nova Cena que, cada uma a seu modo, também recusam o consolo.

"Fim de Partida", em cartaz de 13 a 16 de agosto no Teatro TotalEnergies, tem Marco Nanini como Hamm — cego, numa cadeira de rodas, ditando o fim — e Guilherme Weber como Clov, seu servo e único vínculo com o mundo exterior. A direção é de Rodrigo Portella, e o elenco ainda conta com Helena Ignez e Ary França. Escrita nos anos 1950 sob o impacto da Segunda Guerra, a tragicomédia de Beckett descreve com precisão perturbadora um mundo preso em repetições, jogos de poder e uma espera que nunca se resolve.

A mostra Nova Cena, vertente do festival dedicada a artistas em processo de consolidação, ocupa os dias anteriores com três produções que desenham novos caminhos cênicos. "Maldita", vencedora do Prêmio APTR de Melhor Direção, traz um grupo de artistas da Baixada Fluminense que fez sua primeira temporada na Zona Sul carioca no início de 2025 e já acumula mais de 3,5 mil espectadores. A montagem propõe uma releitura das tragédias gregas — Édipo Rei, Sete Contra Tebas e Antígona — filtrada pela ironia e pelo humor do universo drag, com paródias, lipsyncs e referências à cultura pop.

"O Buraco", em sessões gratuitas na sala Adolpho Bloch, flerta com o teatro do aburdo ao contar a história de um buraco que aparece num dos andares de um edifício LaPlace, alterando e desorganizando a rotina dos condôminos. Reações desproporcionais levam a trama ás raias do absurdo, numa dissecação das neuroses de classe que regem a vida em comunidade.

Já "1 Peça Cansada", de Natasha Corbelino, nasceu de um esgotamento literal. Após uma turnê teatral na França, a autora e produtora carioca se viu diante de um dilema: cansaço profundo de um lado, nenhum projeto em vista do outro. Transformou a sala de seu apartamento em palco e abriu a porta — mais de mil pessoas passaram por lá. Agora migrada para o teatro convencional, a performance acumula referências que vão de Van Gogh a Clarice Lispector e propõe uma reflexão sobre o cansaço como condição estrutural da sociedade.

"O festival se consolidou como um espaço de encontro, celebração e reflexão sobre a cena teatral. O sucesso desta edição, com sessões lotadas e uma participação tão expressiva do público, tanto nas plateias dos espetáculos quanto nas oficinas e no Palco 360, revela a força do teatro e reafirma a importância de ações que aproximem artistas, suas obras e o público", comemora a curadora Maria Siman. "Mais do que os números, o que fica é a sensação de que construímos um festival vivo, plural e conectado com o seu tempo", completa.

SERVIÇO

2º FESTIVAL DE TEATRO DO RIO

Teatro TotalEnergies (Rua do Russel, 804 — Glória) | Programação completa em www.https://festivaldeteatrodorio.com.br