Clausura humana

Por por CLÁUDIO HANDREY - ESPECIAL PARA O CORREIO DA MANHÃ

Vino Fragoso em 'A Pequena Prisão', solo sobre o caso do estudante Igor Mendes preso em função da onda de protestos de 2013

O escritor e professor de geografia Igor Mendes, finalista do prêmio Jabuti em 2021, preso arbitrariamente em dezembro de 2014, permaneceu no Complexo de Gericinó, em Bangu, por quase sete meses. Foi acusado de descumprir medidas cautelares que o proibiram de manifestar-se em protestos públicos, remetendo-nos à ditadura militar em pleno século 21, cuja polícia, imprensa e governantes tornam-se parceiros na perseguição aos que lutam por injustiças sociais.

Em 2024 o Tribunal de Justiça, absolveu os acusados, reconhecendo ilicitude de provas obtidas. O ativista político transformou dor em literatura e escreveu "A Pequena Prisão", desvelando relações construídas a partir de encontros com seres humanos que compartilham aflições na realidade cruel do sistema prisional brasileiro. Conflitos, memórias, violência, solidariedade são situações pungentes ecoando no relato de Mendes, que depararam-se com o talento de Daniela Pereira de Carvalho na composição de uma carpintaria exemplar, valorizando a contundência da obra. A adaptação teatral organiza o gênero, concebendo uma dramaturgia fluida.

A direção de Fernando Ceylão é funcional, na medida que estabelece uma dinâmica para que todas as personagens possam coabitar, conduzindo seu intérprete apropriadamente. Fundamenta um compasso teatral valorizando a expertise do texto dramático que lhe foi atribuído, além de criar imagens tocantes, instituindo velocidade.

Há uma corporalidade sustentando e ampliando a corporeidade de Vino Fragoso, que percorre toda a encenação repleto de força dramática, vigor e precisão, amparado pela harmoniosa direção de movimento de Fernanda Dias. Transfigura-se em mais de 30 personagens entre narrador, agentes penitenciários e detentos embrutecidos até o afeminado, com extrema segurança. Vale ressaltar que o monólogo é ousado, por onde o ator trafega sem vacilar, desenhando meandros psicológicos em papéis dificultosos. Objetiva o conteúdo, além de humanizá-lo. Fragoso abarca características do que chamamos artista de teatro, através do qual idealiza o projeto, produz e concebe visualmente.

Portas-grade deslizam pelo palco como extensão da escritura dramatúrgica, favorecendo à toda estrutura cênica. Vino Fragoso instaura uma cenografia, que para além da plasticidade, determina espaços distintos. E em parceria com Felicio Mafra, ilumina o espetáculo com luz branca, seca, numa sintonia com aquele universo hostil, abrindo exceção para o vermelho aguerrido e ao mesmo tempo sanguinolento na cena da morte de Alessandro, prisioneiro deprimido, que tira a própria vida ao saber que ganhará a liberdade, configurando um dos grandes momentos. João Pimenta veste o ator num uniforme de recluso, adequadamente. Federico Puppi pontua com sagacidade a atmosfera aterradora na sua direção musical.

"A Pequena Prisão" vai além e revela-nos o quanto estamos e somos encarcerados.

SERVIÇO

A PEQUENA PRISÃO

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 — Botafogo)

Até 30/8, de quinta a sábado (20h) e domingo (19h)

Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)