Pode rir da morte?
Em seu primeiro monólogo numa carreira de sete décadas, Arlete Salles dá vida a uma mulher que descobre que o luto também pode ser hilário
Depois de sete décadas pisando em palcos com companhias inteiras, elencos numerosos e a segurança de quem sabe que, se algo der errado, há sempre alguém ali para cobrir o buraco, Arlete Salles decidiu que era hora de fazer exatamente o oposto. Nesta sexta (7), ela estreia, aos 88 anos, no Teatro dos 4, na Gávea, o primeiro monólogo de sua carreira.
A peça se chama "Mande Notícias do Mundo de Lá", tem texto e direção de Carlos Jardim, e parte de uma cena que poucos associariam à comédia: um cemitério, um caixão, um velório deserto. A personagem Eulália Eugênia — mulher exuberante, cheia de histórias e de pavor absoluto da morte — precisa enfrentar justamente aquilo que mais teme para se despedir de Rosimere, amiga de décadas e de incontáveis peripécias. Como ninguém mais compareceu, é Eulália quem se aproxima do caixão. E ali, entre lembranças e implicâncias antigas, nascem o humor afiado e a emoção genuína.
"Nunca foi um projeto meu ficar sozinha no palco, falando, falando… Eu achava bonito assistir a outros colegas fazendo isso. Achava muito corajoso", conta Arlete, que nasceu em Paudalho, no interior de Pernambuco, começou no rádio e migrou para o teatro aos 15 anos, num curso no Paraná, antes de desembarcar no Rio de Janeiro aos 18 para investir na carreira. De lá para cá, foram novelas memoráveis — de "Salsa e Merengue" a "Porto dos Milagres" —, dezenas de filmes e peças como "A Partilha" (1990) e "A Vida Passa" (2001), que a consagraram como uma de nossas atrizes mais versáteis. Mas o monólogo, esse ela vinha adiando.
A decisão de aceitar o desafio veio aos poucos, com a leitura repetida do texto de Jardim. "Eu senti muitas qualidades e me identifiquei em vários pontos. Você precisa ler mais de uma vez, mais de duas, mais de três, para descobrir as sutilezas, as voltas, as subidas e descidas de um bom monólogo", explica. A identificação, segundo ela, não é apenas profissional. É pessoal. "Em vários momentos, me identifico com a Eulália, porque é um trabalho sobre etaridade. Ele trata da vida de uma mulher com a minha idade. Então, falo de muitas coisas que estão presentes na minha vida, que eu conheço, que eu sinto, que eu vivencio diariamente", comenta. "Envelhecer é um grande desafio, mas é muito pior partir jovem, sem ter aproveitado essa maravilha que é a vida, que é viver", completa.
Do outro lado da cena, Carlos Jardim construiu o texto como quem conhece bem o material humano com que está trabalhando. Jornalista com 41 anos de experiência — passou pela edição do Jornal Nacional e pela chefia de redação da GloboNews, cargo que deixou recentemente após 13 anos no comando —, Jardim também é homem de teatro. Tem atualmente em cartaz no Rio "Nelson Rodrigues - O Passado Sempre Tem Razão", no Teatro das Artes, e assina a direção de documentários como "Maria - Ninguém Sabe Quem Sou Eu", sobre Maria Bethânia. Para "Mande Notícias", escreveu pensando na versatilidade de Arlete, na capacidade dela de ir do riso fácil à emoção mais profunda em questão de segundos.
"Arlete tem um tempo de comédia raro, sabe fazer pausas e entonações que valorizam imensamente o texto. E tem uma emoção genuína, que aflora com facilidade e emociona a todos. No texto, abuso das passagens quase bruscas entre o drama e a comédia. E Arlete pula de uma emoção à outra com uma facilidade que impressiona", revela o diretor.
Jardim enxerga na comédia uma ferramenta para encarar de frente temas que costumam ser tratados com lastro excessivo — a passagem do tempo, as perdas, a constatação de que o fim pode chegar a qualquer momento. "O envelhecimento traz a inevitável constatação de que o fim pode chegar a qualquer momento. Isso pode gerar angústia ou despertar em nós uma urgência de fazer valer o tempo que nos resta. Acredito sinceramente que o humor é a chave para deixar tudo mais leve, inclusive na maneira de encarar essas limitações", diz.
Para Jardim, o fato de uma atriz do calibre de Arlete aceitar o primeiro monólogo aos 88 é um gesto que extrapola o profissional. "Acho fascinante uma atriz gigante como a Arlete, que não precisa provar nada a ninguém, aceitar se desafiar a essa altura da carreira fazendo seu primeiro monólogo. É se jogar no trapézio sem rede de proteção. Como diretor, tento facilitar esse voo. E posso garantir que será um voo lindo e surpreendente", conclui.
SERVIÇO
MANDE NOTÍCIAS DO MUNDO DE LÁ
Teatro dos 4 (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52, 2º piso)
De 7/8 a 4/10, sextas e sábados (20h) e domingos (19h) | Ingressos entre R$ 73 e R$ 147