Um clássico revisitado sem a menor reverência
Armazém Companhia de Teatro apresenta sua leitura para 'A Gaivota', de Anton Tchekhov, sem o menor desejo de trazer uma montagem engessada pelo sucesso do texto
No dia 17 de outubro de 1896, no Teatro Alexandrinsky, em São Petersburgo, Anton Tchekhov assistiu ao desabamento de sua própria peça. "A Gaivota" foi vaiada, provocou risos indesejados e fez o autor abandonar a sala no meio do espetamento, jurando nunca mais escrever para o teatro. Dois anos depois, em 1898, um jovem chamado Konstantin Stanislavski remontou a obra num teatro recém-fundado em Moscou. O sucesso foi tamanho que uma gaivota passou a figurar no emblema da casa — e o Teatro de Arte de Moscou nasceu ali.
Mais de um século e muitas e muita smontagens mundo afora, a gaivota do dramaturgo russo pousa no palco do Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB RJ), sob os cuidados da Armazém Companhia de Teatro. A montagem, simplesmente intitulada "Gaivota" — sem o artigo, como quem dispensa formalidades —, tem direção de Paulo de Moraes e estreia nesta quarta-feira (5).
Fundada em 1987 em Londrina, no Paraná, a Armazém completa 39 anos de atividades ininterruptas em 2026. Radicada no Rio desde 1998, construiu uma linguagem própria, marcada pela centralidade do trabalho do ator e pela investigação das relações entre corpo, palavra, tempo e espaço. Há prêmios internacionais no currículo: o Fringe First Award, no Festival de Edimburgo, conquistado em 2013 e novamente em 2014, e o Coup de Cœur de la Presse d'Avignon, no mesmo ano. É uma das companhias mais longevas e respeitadas do teatro brasileiro.
"A Gaivota" é para o grupo a peça que melhor articula aquilo que define o dramaturgo russo: a recusa das grandes ações em favor dos conflitos íntimos e silenciosos. Em vez de heróis e batalhas, Tchekhov oferece frustrações cotidianas, amores não correspondidos, ambições que se esfarelam. O não dito ganha protagonismo. Os silêncios pesam mais que os diálogos.
Ambientada numa propriedade rural às margens de um lago, a peça acompanha personagens movidos por desejos interrompidos e sonhos que esbarram na própria limitação. No centro estão Konstantin Treplev, jovem escritor que sonha transformar a linguagem teatral, e Nina, aspirante a atriz fascinada pela ideia de sucesso. Ao redor deles, figuras consumidas pelo desgaste emocional expõem a fragilidade dos vínculos humanos — Irina Arkádina, atriz consagrada e mãe de Konstantin; Boris Trigórin, escritor já estabelecido que se torna objeto de desejo; Masha, jovem que veste de luto a vida sem ter por quem chorar. Completam o quadro Dorn e Sórin, habitantes desse universo fechado onde todos amam quem não os ama.
Na montagem da Armazém, Jopa Moraes assume Konstantin e Lorena Lima interpreta Nina. Patrícia Selonk é Irina Arkádina; Bruno Lourenço, Trigórin; Isabel Pacheco, Masha. Fe Bustamante e Sérgio Machado completam o elenco como Dorn e Sórin. A dramaturgia da versão é assinada por Maurício Arruda Mendonça, Jopa Moraes e o próprio Paulo de Moraes, a partir da obra original — uma adaptação que, segundo o diretor, busca preservar o núcleo de Tchekhov sem tratá-lo como relíquia intocável.
"Um clássico não pode ser tratado com reverência. Ele permanece vivo justamente porque continua produzindo atrito, desconforto e conflito", reflete Paulo de Moraes. "Em 'A Gaivota', o que mais me atravessa é a necessidade humana de pertencimento. Mais do que reconstruir Tchekhov, nosso desafio é descobrir como essa gaivota continua nos observando hoje."
A dramaturgia tchekhoviana traz questões que poderiam ter sido escritas no tempo preente: ansiedade, necessidade de validação, crise de pertencimento, pressão por reconhecimento social e profissional. Numa época marcada pela exposição constante, pela competitividade e pela busca de visibilidade, os personagens de 1896 refletem angústias familiares. Konstantin quer revolucionar a arte e ninguém o leva a sério. Nina sonha com o palco e descobre que o sucesso cobra um preço que talvez não esteja disposta a pagar. Trigórin, já consagrado, vê a fama como armadilha tão sufocante quanto o anonimato.
Paulo de Moraes construiu sua trajetória na intersecção entre direção, dramaturgia e cenografia. Premiado ou indicado aos Prêmios Shell, Cesgranrio e APTR, entre outros, ele busca um teatro pensado a partir do jogo entre ator e espaço cênico.
SERVIÇO
GAIVOTA
Teatro II do CCBB RJ (Rua Primeiro de Março, 66, Centro)
5/8 a 13/9, quarta a sexta (19h), sábados e domingos (18h)*
Ingressos: R$ 30 e R$ 15 (meia)
*Sessões especiais: tradução em Libras (12/8), audiodescrição (13/8), bate-papo com elenco e diretor (14/8)