Drama familiar no meio da greve
'Eles Não Usam Black-Tie', de Gianfrancesco Guarnieri, mostra a força atual de sua dramaturgia em nova montagem com direção de João Velho
Gianfrancesco Guarnieri tinha 22 anos quando terminou de escrever "Eles não usam black-tie". Era 1956. O filho de imigrantes italianos, recém-integrado ao Teatro de Arena, havia sido estimulado a compor suas primeiras peças no Seminário de Dramaturgia que Augusto Boal instalara ali como atividade paralela ao Laboratório de Interpretação.
O resultado estreou em 22 de fevereiro de 1958, sob direção de José Renato, e foi celebrado como marco inaugural da dramaturgia social brasileira: pela primeira vez, o trabalhador urbano ocupava o palco não como caricatura, mas como sujeito histórico, com família, dilemas e uma linguagem que era a sua — simples, espontânea, sem reverência ao teatro de salão. Guarnieri derrubara o estereótipo do favelado, até então reduzido a bandido, malandro ou acomodado político.
A peça volta ao cartaz no Rio numa nova temporada da Única Companhia de Teatro, com direção de João Velho — que também integra o elenco. Neste 2026 completam-se duas décadas da morte de Guarnieri e a temporada reverencia os 90 anos que o ator e dramaturgo faria em 2024 — data já celebrada em montagens anteriores deste mesmo espetáculo.
No centro da trama está o jovem operário Tião, que descobre que vai ser pai e, dividido entre o casamento com Maria e o medo de perder o emprego, decide furar a greve deflagrada na fábrica onde trabalha. O gesto o coloca em rota de colisão com o pai, Otávio, velho militante sindical. Ao redor desse conflito — o embate entre o individual e o coletivo, entre a urgência da sobrevivência e a coerência da luta —, Guarnieri constrói um drama familiar ambientado num barraco de favela carioca, com personagens que falam a língua da classe trabalhadora.
É dessa tensão dramática que nasce a força perturbadora do texto. E sua incômoda atualidade. João Velho coleciona relatos de espectadores que se viram na trama, como o de um funcionário dos Correios que, em plena greve da categoria, saiu do teatro dizendo viver, ali fora, exatamente aquela história. As mobilizações recentes de entregadores por aplicativo e de motoristas de ônibus no Rio ecoam a mesma estrutura de sentimento. "Curiosamente, ou talvez infelizmente, neste momento político, a peça volta a ser extremamente relevante", observa o diretor. "Ela traz uma discussão muito importante sobre o coletivo e o individual, e o Guarnieri deixa muito espaço para o público tirar as próprias conclusões."
A obra teve desdobramento cinematográfico. Em 1981, Leon Hirszman adaptou-a para o cinema, com roteiro escrito em parceria com o próprio Guarnieri. O filme — que trazia Carlos Alberto Ricelli como Tião, Bete Mendes como Maria, Fernanda Montenegro como Romana e o próprio Guarnieri como Otávio — conquistou o Leão de Ouro no Festival de Veneza, até hoje o único filme brasileiro a receber a premiação máxima do festival.
Sem abrir mão do respeito ao texto original, a montagem assume referências brechtianas e interação com o púbkico. "Minha intenção é 'trair com respeito': oferecer uma nova leitura, quebrar a quarta parede, fazer o público participar e estimular um distanciamento crítico", explica Velho. "Em vez de apenas provocar emoção, a ideia é também despertar uma reflexão racional."
No elenco, Pedro Rocha, Nino Batista, Tai Xavier, Laura Campos Braz, João Velho, João Amorim, Vini Venancio, Mara Uchoa, Bruna Kury, Ricardo Lopes e Tatiane Melo dão vida à família de Otávio e aos moradores do morro.
SERVIÇO
ELES NÃO USAM BLACK-TIE
CCJF — Centro Cultural Justiça Federal (Av. Rio Branco, 241, Centro)
De 7 a 30/8, sexta a domingo (19h) | Ingressos: R$ 50 e R$ 25 (meia)