Uma cicatriz ainda aberta

Baseado em caso real, 'A Pequena Prisão' é um mólogo imersivo no qual Vino Fragoso encarna mais de 30 personagens

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Vino Fragoso em 'A Pequena Prisão', monólogo baseado no caso real do estudante Igor Mendes preso em função da onde de protestos de 2013

Uma das páginas mais nebulosas da jovem democracia brasileira, os protestos estudantis de 2013 deixaram cicatrizes em nossa sociedade. A saga do estudante Igor Mendes, que passou sete meses preso, foi a matéria-prima do livro "A Pequena Prisão" (2017) e agora chega aos palcos em monólogo com atuação de Vino Fragoso e direção de Fernando Ceylão.

Aluno de Geografia na UERJ e militante estudantil, Igor, aos 25 anos, foi preso em julho de 2014, na véspera da final da Copa do Mundo, e passou sete meses no Complexo Penitenciário de Gericinó, o antigo Bangu I. Foi o militante que permaneceu mais tempo atrás das grades entre os 23 ativistas processados pela participação nas chamadas Jornadas de Junho de 2013. Passou Natal e Ano-Novo isolado, sem visita, numa cela nua. Somente em 2024, mais de uma década depois, todos foram absolvidos. O tribunal reconheceu que a Polícia Civil e o Ministério Público construíram a acusação sobre provas ilícitas e testemunhos falsos.

O livro foi lançado dentro de quentinhas, numa performance-encadernação conduzida por Isabel Teixeira. Depois, integrou o espetáculo "Florestas que Andam", de Christiane Jatahy. Agora, pela primeira vez, ganha montagem teatral própria, com dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, direção de Fernando Ceylão e atuação de Vino Fragoso — que também assina a concepção visual e cenográfica, numa entrega que coroa sua terceira criação autoral no Teatro Poeira, espaço fundado em 2005 por Marieta Severo e Andréia Beltrão em Botafogo.

"O Igor não foi preso nos anos 70. Ele não foi preso no período pós-golpe de 1964. O Igor foi preso em pleno regime democrático. A democracia falhou ele", ressalta a dramaturga, que enxergou na prisão de um jovem universitário por protestar uma característica histórica da repressão à juventude estudantil brasileira.

O espetáculo, contudo, não se propõe a reconstruir um caso judicial nem a revisitar um episódio político específico. Seu interesse está nas pessoas. Nos homens que habitam os espaços que a sociedade não enxerga. Nos afetos que sobrevivem em meio à violência. Ao atravessar os portões do sistema penitenciário, o protagonista encontra um país invisível, uma sociedade paralela habitada por personagens complexos, contraditórios e profundamente humanos. Mais de 30 deles desfilam por um único corpo em cena — o de Vino Fragoso —, numa atuação construída a partir de constantes transformações físicas e emocionais, que conduz o espectador por diferentes perspectivas e experiências de vida, entre testemunho, memória, ficção e presença.

A direção aposta numa proximidade radical entre plateia e cena. O público, disposto em formato não convencional, acompanha a ação cercado por uma estrutura cenográfica em permanente transformação: oito grandes portas-grade movimentam-se pelo espaço, criando corredores, celas, fronteiras, encontros e separações.

Para Igor Mendes, ver o texto ganhar os palcos provoca um sentimento que ele mesmo classifica de contraditório. "Estou muito feliz com a adaptação, produzida e encenada pelo meu amigo Vino Fragoso. De um lado, a alegria por perceber que o texto segue relevante e atual; de outro, indignado que ele talvez faça mais sentido hoje do que há dez anos. Como se a sociedade brasileira caminhasse ciclicamente para trás", desaba. "Transformar em arte a dura realidade das prisões já é uma maneira de abrir brechas nos muros de indiferença que as cercam, um primeiro passo para derrubar os muros da pequena e da grande prisão também na realidade", completa.

"Mais do que falar sobre prisões, 'A Pequena Prisão' investiga aquilo que resiste dentro delas. E por que o processo de ressocialização é algo limitado a casos isolados? Porque talvez a pergunta mais importante não seja quem está atrás das grades, mas quais são as grades que permanecem do lado de fora", comenta Vino Fragoso.

Produzido de forma totalmente independente, reunindo profissionais de destaque da cena teatral brasileira, o espetáculo será acompanhado por uma série de ações paralelas durante a temporada, incluindo encontros com o público e atividades relacionadas ao relançamento da obra de Igor Mendes em edição comemorativa. O livro, é importante registrar, foi considerado por renomados criminalistas um dos mais importantes relatos sobre o sistema prisional brasileiro dos últimos tempos — o que confere à adaptação uma dimensão além do terreno artístico.

SERVIÇO

A PEQUENA PRISÃO

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104 — Botafogo)

Até 30/8, de quinta a sábado (20h) e domingo (19h)

Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)