Imerso no universo rosiano
Gilson de Barros volta ao Rio com a terceira parte de sua trilogia baseada em 'Grande Sertão: Veredas'
O Centro Cultural do Poder Judiciário do Rio de Janeiro recebe nesta quarta-feira (29) sessão gratuita do monólogo "O Julgamento de Zé Bebelo", terceiro recorte da "Trilogia Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa, idealizado pelo ator e dramaturgo Gilson de Barros.
O episódio escolhido é dos mais instigantes do romance. Zé Bebelo, chefe jagunço derrotado em combate, recusa a execução sumária — praxe no sertão — e exige um julgamento "correto e legal". O que se segue é uma cena insólita e fundadora: Joca Ramiro, outro comandante de bando, assume a função de juiz, garante ampla defesa ao réu e, ao final, decreta sua soltura sob condição de exílio em Goiás. É a aplicação do Direito improvisada sobre o cano da espingarda.
A passagem situa-se na transição entre a República Velha e o Governo Provisório de Vargas, quando o escritor mineiro desenha o panorama do sistema jagunço e do coronelismo — um país onde a lei, quando existe, depende mais da vontade de um chefe do que de qualquer código.
A montagem aposta no que Gilson de Barros chama de "interpretação narrativa", técnica que preserva a riqueza da linguagem poética de Guimarães Rosa sem transformá-la em recitação. "A montagem preserva a especificidade da linguagem poética de Guimarães Rosa, utilizando técnicas de interpretação narrativa que permitem uma imersão profunda na história, respeitando a riqueza linguística do autor", explica o ator.
Amir Haddad, com décadas de ofício no teatro carioca, reforça a opção pelo despojamento: "O espaço cênico minimalista, com poucos elementos visuais e sonoros, foi concebido para não sobrecarregar a narrativa, criando um ambiente propício para que o espectador se entregue à força da história." Palco nu, voz e verbo.A trilogia circula há seis anos por São Paulo, Rio, Belo Horizonte e Lisboa, onde passou pela Fundação José Saramago. Neste 2026, quando se completam setenta anos da publicação de Grande Sertão: Veredas, o projeto segue chamando atenção pela fidelidade ao texto — não ao texto como monumento intocável, mas como organismo vivo, respirando no corpo de um ator solo. Gilson, que também assina os recortes, faz do palco uma varanda de onde se fala, reflete e confessa, como um Riobaldo que nunca largou a estrada.
Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG), em 1908. Diplomata, médico, poliglota — traduziu autores como Goethe e Rilke antes de se dedicar à própria ficção. Sua obra não se encaixa no regionalismo tradicional: o sertão que ele descreve é ao mesmo tempo mineiro, brasileiro e universal. Criou neologismos, misturou oralidade popular com sintaxe erudita, reinventou o português para dar voz a quem nunca teve palavra.
SERVIÇO
O JULGAMENTO DE ZÉ BEBELO
Centro Cultural Poder Judiciário do Rio de Janeiro (Rua Dom Manuel, 29 — Centro) | 29/7, às 18h30 | Grátis