Regina Miranda: 'O que de nós atravessa o tempo?'
Num momento de conexão radical com os códigos do cinema, depois de filmar "Escritas De Resistência: Mulheres em Auschwitz" (2025), a multiartista do movimento Regina Miranda (um pilar nacional do ofício da coreografia) entrou em modo "De Volta Para o Futuro" em sua rota de pesquisas num reencontro com um marco da literatura universal e com seu pretérito mais que perfeito em palcos - inclusive alguns nada usuais. Há trinta e cinco anos, ela fez história, no Museu de Arte Moderna (MAM-RJ), no Aterro, com um espetáculo decalcado de "A Divina Comédia", de Dante Alighieri. Três décadas e meia depois, ela retorna aos quintos da invenção do bardo renascentista, mas numa nova abordagem.
Seu projeto atual se chama "A Divina Comédia: Ritrovai (reencontro) - Rivedere (reimaginação)" e terá duas únicas apresentações, e ambas nesta quinta (30), às 18h e às 20h. A apresentação, sob a direção geral de Regina, vai reunir 120 intérpretes de diferentes gerações numa grande instalação cênica imersiva que ocupará 16.500m² dos jardins do MAM Rio.
A encenação conta com artistas que participaram da montagem original numa troca artística com jovens atuantes da cena carioca, formando um elenco com intérpretes dos 12 aos 90 anos.
Inspirado no poema de Dante, o espetáculo transforma Inferno, Purgatório e Paraíso em experiências espaciais e sensoriais atravessadas pelas urgências contemporâneas. O Inferno como os estados de desesperança frente a crises ambientais, visões extremadas de mundo e apagamentos culturais. O Purgatório como território de reflexão, esforço e reconstrução. E o Paraíso como a necessidade humana de imaginar e encarnar beleza, encontro, transcendência.
O espetáculo celebra ainda os 45 anos de atuação e mais de 60 obras cênicas da Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos, reunindo seu núcleo artístico - Marina Salomon, Patrícia Niedermeier, Adriana Bonfatti, Ana Bevilaqua e Lígia Tourinho. Virgílio é vivido por Edi Botelho. Dante do Inferno é vivido por Fabiano Nunes, e do Purgatório por Daniel Herz. Christiana Guinle dá vida a Francesca da Rimini. Maria Alice Poppe é Esmirna; Lourival Prudêncio e Rafael Telles são o Minotauro; a cantora lírica e bailarina Doriana Mendes é a Artista Vitrificada; Rodolfo Brandão interpreta Lúcifer - como na primeira montagem. No Purgatório, Fernando Bicudo vive um dos 7 Anjos; Carolyna Aguiar é uma das Ninfas do Eden; a cantora Leila Maria, vive um Anjo, como na primeira montagem. Estão ainda no elenco Ruth Mezeck, atuante na primeira, e agora com 90 anos.
No Paraíso, integram o elenco 12 meninas do Projeto ENTRARTE / GRC Escola de Samba Mirim Crias da Imperatriz (@criasdaimperatriz_oficial). Diversidade não falta a esse coletivo, numa dinâmica que tem Marina Salomon como diretora associada. As já citadas Adriana Bonfatti e Ligia Tourinho são diretoras assistentes.
No papo a seguir, Regina faz um balanço das aprendizagens e da encantarias já reunidas no ensaio desse experimento singular.
O que significa reencontrar "A Divina Comédia" não mais como texto, mas como um projeto estético de ocupação especial?
Regina Miranda - Trinta e cinco anos após a criação da nossa instalação cênico-coreográfica no MAM, que se tornou um marco nas artes da cena do Rio de Janeiro, somente me decidi a reencontrar "A Divina Comédia" quando percebi que o poema permanecia vivo em mim, de uma maneira diferente daquela que me levou a aborda-lo em 1991. Agora, para além da curiosidade sobre seus personagens, do encanto pela riqueza e grandiosidade de suas paisagens e por sua incontestável beleza poética, existia em mim uma nova motivação, que eu poderia resumir em uma pergunta: "O que de nós atravessa o tempo?". Esta pergunta me levou de volta à montagem de 1991, entendendo que a memória não recompõe um acontecimento e que cada tempo traz novas perguntas e pede novas formas. A criação atual nasce dessa nova indagação, tão pertinente ao meu momento de vida, e do encontro entre duas temporalidades: a memória da obra e a experiência do presente.
O que Dante te oferece como caminho para entender o Presente?
Penso que, hoje, a travessia proposta por Dante há 700 anos pode oferecer a interrogação como caminho. Quais as intensidades preponderantes em nossa vida? Como tratamos nossos afetos, escolhemos prioridades e, principalmente, como refletimos e acolhemos (ou não) os nossos estados extremados e as nossas zonas sombrias e tenebrosas? E as questões de transcendência, mistério e desdobramentos de mundos? Que lugar tem essas questões em tempos de instantâneos e compensações imediatas? Interessou-me pensar Inferno, Purgatório e Paraíso como dimensões que coexistem e atravessam a experiência humana. Não como lugares... ou etapas sucessivas e hierárquicas, mas como estados que se manifestam nos corpos, nas relações, nas cidades e nas formas de convivência, muitas vezes presentes num mesmo dia, na mesma pessoa. A ideia de uma cosmologia horizontal - e não vertical como em Dante - surgiu durante essas reflexões e reorganizou o espaço da encenação, que precisaria traduzir esta ideia de equidade emocional e, assim, escolhi voltar ao MAM e criar o trabalho em seus jardins, dialogando com sua arquitetura e seus espaços de passagem, suspensão e circulação de ar e luz. A proximidade entre natureza e espaços construídos deixou de ser cenário para se tornar matéria dramatúrgica. E caminhar pelo espaço passou a ser uma forma de pensar.
De que forma esse retorno à Dante afina seu modo de observar, de escutar, de trocar?
A nova realização privilegia a escuta e a ressonância, propõe uma travessia cênica que recria o espaço por meio de modulações coreográficas, sonoras, visuais e teatrais e pretende responder, tanto ao arco conceitual do poema de Dante Alighieri, quanto ao momento presente deste reencontro. Embora os diálogos entre Dante e Virgilio possam ser percebidos como um fio condutor, a obra não se oferece como um único percurso, mas como uma constelação de experiências diversas. O público tem a possibilidade de percorrer a instalação como quem atravessa uma paisagem. Pode ainda escolher um recanto e meditar envolvido pela música e pelas tramas entre corpo e luz. Cada deslocamento produz relações diferentes entre os acontecimentos que ocorrem simultaneamente. Cada pessoa constrói seu percurso, aproxima acontecimentos, cria vínculos entre imagens e leva consigo uma composição singular.
Qual é o engenho de direção por trás dessa mobilização coletiva? Como manter essa multidão em sintonia?
Não penso essa mobilização como resultado de uma liderança capaz de coordenar uma multidão. Prefiro entendê-la como a construção de um campo de atenção compartilhado. Nosso processo começou por uma ideia que despertou um desejo potente. Na "Divina Comédia", esse desejo vinha impulsionado por um certo desassombro diante do risco, da escala e do formato pouco usual. Atravessar - em conjunto - um poema de setecentos anos, ocupar os 16.500m2 dos jardins do MAM, reunir gerações distintas de artistas, reimaginar uma obra feita de dezenas de ações simultâneas. Tudo isso já continha uma força mobilizadora. Mas o desejo, sozinho, não sustentaria um processo dessa dimensão. Talvez o que mantenha este grande coletivo em sintonia seja uma forma de trabalho desenvolvida na Cia. Regina Miranda & AtoresBailarinos ao longo de décadas. Completamos 45 anos e nosso nucleo criativo (e de produção) permanece junto há muito tempo. Essa permanência não acontece porque compartilhamos uma estética fixa. Talvez seja porque desenvolvemos uma maneira comum de investigar e um intenso respeito e admiração pela autonomia com conexão.
Que caminhos vocês têm constituído para o fazer artístico?
Ao longo desses anos, construimos uma linguagem propria de teatro coreográfico, calcada no reconhecimento de qualidades de presença, modos de relação, intensidades, ritmos e organizações espaciais. Nela, o corpo, para além de um instrumento expressivo, passa a ser um modo de conhecer e estar. Pensar e falar não acontecem antes ou depois do movimento, mas durante a ação. O ensaio é simultaneamente lugar de aprendizagem e produção de conhecimento e afeto. Essa perspectiva transforma também a ideia de direção. Nunca me interessou organizar um conjunto de pessoas para que todas fizessem a mesma coisa e "do meu jeito". O que me interessa é criar condições para que cada intérprete encontre sua própria potência dentro de um campo estético comum. A sintonia nasce justamente da capacidade de perceber a si e em si a relação com o outro, o espaço e o acontecimento - em tempo real. É uma escuta corporal aguda e uma inteligência relacional rizomática.
O que essa escuta gera?
Talvez seja essa a engenharia invisível do trabalho: produzir um ambiente onde autonomia e interdependência deixam de ser instâncias opostas. Quanto mais cada artista se apropria daquilo que faz, maior se torna sua capacidade de sustentar o coletivo. A sintonia emerge das relações. Existe ainda um outro aspecto que reconheço mais intuitivamente do que racionalmente. Tenho facilidade para perceber desejos e ideias que parecem "estar no ar" antes de se tornarem evidentes. Minha avó dizia que eu intuía o que ainda iria "virar moda". Anos depois, minha professora de Geometria descreveu essa mesma qualidade como um conhecimento intuitivo encarnado. Gosto dessa expressão porque ela aproxima intuição e experiência. A intuição não surge do acaso, mas da convivência prolongada com um campo de questões. Atualmente, percebo um desejo crescente de reencontro com um sentido de coletividade, com uma vivência mais expansiva.
Aonde esse desejo te leva?
Sobretudo em meio a uma valorização das artes apenas como entretenimento, sinto nas pessoas - artistas ou não - uma vontade renovada de experimentar o corpo como lugar de criação, mistério, presença, ação e pensamento compartilhado. Mesmo assim, quando publiquei uma breve nota dizendo que pensava reunir novamente o elenco da montagem de 1991 para uma celebração cênica, não imaginei a resposta que receberia. Além de artistas da primeira montagem, vieram muitas, muitas outras pessoas. Hoje são 124 intérpretes, entre doze e noventa anos, de corporalidades e experiências de vida e arte muito diversas, além de cerca de oitenta colaboradores na equipe técnica e de criação. Tod@s trabalhando colaborativamente. Essa dimensão continua me espantando. E é profundamente arriscada.
Como dimensionar esse risco?
As artes da cena trabalham com a matéria mais instável que existe: a presença. Não importa o que aconteça, em cena o corpo permanece em estado de atenção criativa. Cada acontecimento inesperado precisa ser incorporado à própria dinâmica da obra. O erro precisa deixar de ser interrupção e passar a fazer parte do jogo. Talvez seja por isso que eu acredite tanto na potência do teatro e da dança. Essas artes nos ensinam que a inteligência não consiste em controlar tudo, mas em responder criativamente ao que emerge. Inclusive a lidar com a ausência, para mim talvez a mais difícil das instâncias, que aliás venho pesquisando desde 2016, com a instalação P.O.E.M.A.
Como definir tanto aprendizado que "A Divina Comédia" volta a te trazer?
Talvez a palavra que melhor acompanhe e aglutine esse processo seja travessia. Não apenas a de Dante, mas a travessia de um poema escrito há 700 anos, da memória de uma criação realizada há 35 anos, dos belos jardins de um museu, do encontro entre centenas de artistas e espectadores. Aos poucos, compreendo que a travessia deixou de ser um tema da obra. Tornou-se o modo como ela existe.
SERVIÇO
A DIVINA COMÉDIA: RITROVAI (REENCONTRO) - RIVERDERE (reimaginação)
MAM Rio - Museu de Arte Moderna do Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo) | 30/7, às 18h e às 20h | Ingressos: R$ 160 e R$80 (meia)