Verdade obstruída
ENelson Rodrigues alude àquela origem do teatro, colocando o Rio de Janeiro como um novo lugar de base, atestando que o ser humano é uma criatura trágica por natureza, em qualquer tempo. O destino que não se escapa, surge como desejo ou paixão, como uma "hybris" contemporânea. Na tragédia grega, por obra do destino, Édipo assassina seu pai e casa-se com a própria mãe. Na tragédia de Nelson, Arandir, o protagonista, não consegue controlar seu impulso, motivado pela compaixão, beija um desconhecido e cria um destino tão funesto quanto ao de Édipo.
O autor transpõe a tragédia grega para a sociedade carioca do século XX, onde personagens descem do Olimpo e aterrorizam-nos. Há um movimento ondulatório, no qual a linguagem rodrigueana chafurda em lodo, cujas personagens obscuras debatem-se na fixação de interesses escusos. Obra robusta, parece esgotar as possibilidades conflitivas, reencontrando sempre uma pérola fabricada e um novo apocalipse produzido. Com experiência jornalística, concebe sua escrita sem clemência às suas criações, arquitetando situações violentas, num viés de perversão, deslanchando numa contemporaneidade expressionista.
O texto, aparentemente simples, é complexíssimo, tamanha a profundidade da temática, imbuída em conjunções metafísicas, nas quais é instalada uma relação paradoxal pungente: do popular ao transcendente, da abjeção à santidade, do mais bairrista ao mais universal, grandeza e miséria, vida e morte. Maldades, intrigas, poder, falta de ética, hipocrisia, crise familiar, onde sentimentos singelos e puros são transformados em fatal conspiração aniquiladora, evidenciando a questão da sexualidade, tabu na época - a homoafetividade - sob o olhar preconceituoso da sociedade. Ao ser amplamente divulgado pelos jornais, diante das certezas unânimes, toda uma comunidade passa a ter uma noção real de que aquilo literalmente existia, já que o incidente fora fotografado na praça da Bandeira, à luz do dia, na presença de transeuntes. Ao beijar o defunto, Arandir contagia-se com a morte, espalhando-a pelos próximos acontecimentos de sua existência. Personagens parecem coadunar para o assassinato do simplório bancário, em vida. Mesmo a esposa Selminha, recusa a beijar o marido por carregar a saliva do atropelado. A personagem central coloca-se na galeria dos criminosos ao ser delicado e gentil, onde um pequeno gesto ganha asas, tornando-se um crime passional. Há algo de mítico quando Cunha é informado que Amado Ribeiro encontra-se lá embaixo, como se a personagem demoníaca surgisse das profundezas do inferno. Ribeiro e Cunha manipulam, de forma ardilosa e sensacionalista a farsa, pela qual Arandir paga caro.
Um dos grandes destaques da montagem, a direção equaliza o elenco, fundamenta marcas inventivas, propagando uma movimentação fluida e poderosamente teatral. Mantém atores no palco, mesmo que personagens não estejam em cena, metaforizando a vida que não cessa. Abusa da cenografia, que lhe confere uma plasticidade prodigiosa, alternando imagens impactantes, como fotografias do casamento de Arandir e Selminha, numa alusão à modernidade do próprio teatro brasileiro na disruptiva "Vestido de Noiva". Numa cena entre Selminha e Dália, um dos melhores desenhos, nivela seu cenário como um labirinto de emoções.
Comediante nato, Eduardo Sterblich trafega no universo dramático de Arandir com sabedoria, na sua observação da natureza humana, comandando chaves que grandes intérpretes dispõem. A Selminha de Luísa Arraes é convincente e emocionada. Nina Tomsic é surpresa: presença marcante, revela que o ofício lhe pertence. Edson Celulari, elegante, detém força e ótimo jogo com os demais. Outro destaque é a dupla André Mattos e Ernani Moraes, impagável, repleta de ferramentas, sem nenhum receio de compor suas personagens coléricas, enobrecendo a montagem, ancorada pelo enorme talento de seus intérpretes. Em breve aparição, Fernanda Dias e Vinícius Teixeira marcam eficiência, além de explorarem humor. Laura De Castro é segura e encanta-nos com seus dotes vocais. Pedro França, Alcides Peixe, Danilo Canindé, Guiga Camarate e Nigga completam o elenco.
Aurora dos Campos enriquece a encenação com estruturas que ora servem como muros para obstruir a verdade, ora servem como telas para difundir fake news. O figurino de Ronald Teixeira é sóbrio, remetendo à época. Renato Machado agiganta-se no gobo ao desenhar o cadáver no asfalto, nas sombras contornando personagens, nas luzes em resistência e no vermelhidão ilustrando o sangue derramado. Felipe Storino opta pela pungência da canção "De Frente pro Crime", de Aldir Blanc e João Bosco. Tudo isso na oportuna idealização do criativo Rafael Raposo. Obra que permanece atual, possibilita que Marco André Nunes defenda sua autoria cênica aproximando "O Beijo no Asfalto" de todos nós!
SERVIÇO
O BEIJO NO ASFALTO
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº - Copacabana)
De 16/7 a 3/8, de quinta a segunda-feira (20h)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)