Um corpo entre dois mundos
Livre adaptação do conto de Kafka, 'Comunicado a uma Academia' reúne teatro, cinema e circo na sede da Intrépida Trupe, com Patricia Niedermeier em performance solo arrebatadora
Há um macaco que toma a palavra diante de uma plateia de sábios. Sua intenção não é exibir sua evolução, mas apenas contar como foi capturado na selva, enfiado numa jaula e, para escapar da morte lenta no cativeiro, aprendeu a imitar os homens. Não era por admiração, mas um puro instinto de sobrevivência. Essa é a fábula de Franz Kafka em "Comunicado a uma Academia", conto de 1917 que a atriz e diretora Patricia Niedermeier e o cineasta Cavi Borges transformaram em uma das experiências cênicas mais potentes do circuito carioca neste ano.
Depois de uma temporada de estreia em maio que lotou as sessões e arrancou elogios da crítica, o espetáculo chega à sede da Intrépida Trupe, dentro da Fundição Progresso, na Lapa. São seis apresentações de uma peça que mistura linguagens com a mesma liberdade com que seu protagonista — Pedro, o Vermelho — transita entre o gesto simiesco e a postura ereta.
Patricia Niedermeier não interpreta Pedro Vermelho. Ela é Pedro Vermelho. Em cena por 50 minutos ininterruptos, a atriz transborda o texto com uma variedade impressionante de inflexões de voz, pausas expressivas e uma fisicalidade que beira o transe. A crítica já a chamou de "magnetizante" e apontou esta como sua maior atuação desde sempre.
A direção de movimento assinada por Beth Martins e Vanda Jacques, fundadoras da Intrépida Trupe, insere o espetáculo no vocabulário do circo: aparelhos acrobáticos suspensos, movimentos de risco calculado e a exploração vertical do palco transportam o público para o universo aéreo dos primatas. É o terceiro elemento que faltava na já consolidada pesquisa do casal Cavi Borges e Patricia com o formato peça-filme — um híbrido que eles vêm desenvolvendo há cinco anos e que já rendeu cinco montagens.
"São peças que misturam a linguagem do cinema, que vem de mim, e a linguagem do teatro, que vem da Patrícia. Agora temos um terceiro elemento com a entrada da Intrépida Trupe, que é o circo", explica Cavi. A parceria é também uma celebração de trajetórias: em 2026, a Intrépida Trupe completa 40 anos de fundação (nasceu em 1986, das lonas do Picadeiro, revolucionando o circo brasileiro ao mesclá-lo com teatro, dança e música), e a Cavideo, produtora de Cavi, celebra 30 anos de atividade ininterrupta no cinema independente.
A ocupação cenográfica é propositalmente enxuta: um telão frontal exibe cenas criteriosamente selecionadas por Cavi Borges — trechos de "2001: Uma Odisseia no Espaço" e "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick, e de "The Wall", de Alan Parker — num contraponto visual ao monólogo: o chimpanzé que descobre o osso como arma, o soldado que desumaniza o inimigo, o muro que separa e alucina.
O conto de Kafka história edificante. É uma ironia ácida sobre o que chamamos de civilização. O macaco não se torna humano por evolução espiritual — ele adere à lógica dos homens como a única porta de saída da jaula. E despreza o conceito de liberdade que os acadêmicos tanto cultuam. Sua meta é bem mais modesta: alcançar "a formação média de um europeu". O personagem, como define Patricia, "é imperfeito, ambíguo e profundamente humano".
Montado pela primeira vez no Brasil com impacto por Moacyr Góes em 1993, tendo Ítalo Rossi como protagonista numa interpretação que se tornou referência, o texto de Kafka segue inspirando montagens ao redor do mundo — no México, Alejandro Jodorowsky também o levou aos palcos recentemente. A versão brasileira de 2026, no entanto, tem um diferencial que a crítica apontou como "desestabilizador": o macaco que vira homem é interpretado por uma mulher. A escolha não é meramente conceitual — ela desloca o olhar do espectador e acrescenta camadas à discussão sobre identidade, mimetismo e resistência.
Numa cidade que vê o teatro independente lutar por espaço, a parceria entre a Cavideo e a Intrépida Trupe — que inclui também um cineclube e cursos de cinema na sede da Fundição — é um sopro de resistência criativa. Afinal, como pergunta a montagem: o que resta de nós quando precisamos imitar para sobreviver?
SERVIÇO
COMUNICADO A UMA ACADEMIA
Sede da Intrépida Trupe (Rua dos Arcos, 24, Centro - Fundição Progresso)
De 25/7 a 29/8, às 19h
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)