O volta do anjo pornográfico
Bruce Gomlevsky encarna Nelson Rodrigues em nova temporada do monólogo 'O Passado tem Sempre Razão' em palcos cariocas
Após uma temporada de sucesso no CCBB, com sessões lotadas, Bruce Gomlevsky retorna aos palcos como o maior dramaturgo brasileiro em "Nelson Rodrigues - O Passado Sempre Tem Razão". O solo, com dramaturgia e direção de Carlos Jardim, estreia neste sábado (25) no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea.
O monólogo foge ao script de uma biografia convencional. Carlos Jardim não conta a vida de Nelson de forma cronológica — o que está em cena é o pensamento, a palavra, a alma de um homem atormentado, contraditório e genial. "Busco mostrar o Nelson que não foge da polêmica, que faz reflexões profundas, mas que também é humano e, às vezes, até vulnerável. A intenção é mostrar seu pensamento intenso, conturbado, que até hoje se mostra vivo e relevante", explica Jardim, que passou mais de quatro meses mergulhado na obra do escritor pernambucano.
O texto é quase 100% fiel às falas e escritos originais de Nelson, garimpados em crônicas, livros, entrevistas em vídeo, com pequenas intervenções de Jardim e contribuições do próprio Bruce. "Não me arvoro em certezas. Bruce é um apaixonado pelo Nelson e sonhava em interpretá-lo. Conforme fomos lendo e trabalhando, ele trouxe trechos incríveis que se encaixavam com perfeição à ideia original", diz o diretor.
A relação do ator com a obra rodrigueana vem de longa data. Dirigiu montagens de "Bonitinha, mas Ordinária" e "Anti-Nelson Rodrigues", e interpretar o dramaturgo era um desejo antigo. "Sou apaixonado pela obra dele. Um dos maiores dramaturgos do século XX, no mundo. Um profundo conhecedor da psique humana", afirma Bruce, que já viveu outros ícones brasileiros nos palcos — Renato Russo por duas décadas ininterruptas, Raul Seixas em musical e o jornalista Henfil no cinema.
Em cena, Nelson é evocado por suas próprias máximas — "No Rio de Janeiro há de tudo — e até cariocas", "O trágico na amizade é o dilacerado abismo da convivência", "Em amor, deve-se mentir, sempre". Frasista genial, aclamado, odiado, censurado, respeitado até por seus detratores. Sua obra desperta os mais variados sentimentos, jamais a indiferença. Em ano de eleições e Copa do Mundo, a paixão de Nelson por futebol e política e suas opiniões polêmicas entram em cena ao lado de temas como amor, adultério, morte, o Rio de Janeiro e o cotidiano pulsante do subúrbio carioca. "O que mais me atrai é poder provocar discussões ainda muito pertinentes através do pensamento dele, especialmente no mundo de hoje, em que o diálogo e as dúvidas deram lugar a certezas absolutas", resume Carlos Jardim.
A preocupação de Bruce não é a imitação, mas a alma. "Inevitavelmente, será sempre o nosso Nelson, visto através das nossas lentes." Quase cinquenta anos após sua morte, o autor de Vestido de Noiva, O Beijo no Asfalto e Álbum de Família permanece como um dos nomes mais revisitados da cultura brasileira. "O fascinante é que você não precisa concordar com ele para admitir sua genialidade", conclui Jardim.
SERVIÇO
NELSON RODRIGUES - O PASSADO TEM SEMPRE RAZÃO
Teatro das Artes (Shopping da Gávea - Rua Marquês de São Vicente, 52 - 2º piso)
De 25/7 a 30/8, sábados e domingos (20h)
Ingressos: R$ 120 (inteira) e R$ 60 (meia)