A classe média do divã
Com distopia ácida sobre classe média, moral e fé, o grupo potiguar Carmin estreia no Rio uma das montagens mais politicamente explícitas de sua trajetória
Um condomínio de luxo chamado Nova Canaã. Lá dentro, uma mãe solo, dois filhos, uma inteligência artificial doméstica e a promessa de uma vida blindada. Lá fora, um vírus, revoltas sociais e um país em decomposição. Esta é a proposta dramatúrgica de "Gente de Classe", quinto espetáculo original do Grupo Carmin (RN), que estreia nesta quinta (23) no Teatro Firjan Sesi Centro. Só que o ano é 2040. Ou não.
A montagem dirigida por Quitéria Kelly — fundadora do grupo ao lado de Titina Medeiros — opera como um jogo de espelhos: finge que olha para o futuro enquanto dissecava, já em 2018 (quando a dramaturgia começou a ser gestada), o tempo presente. A pandemia, o avanço do conservadorismo, a instrumentalização política da fé e a classe média como motor e refém desse processo — tudo estava lá, antes mesmo de a realidade alcançar a ficção.
"A gente não está fazendo uma ficção científica clássica, que tenta antecipar o futuro, mas uma crítica do presente a partir da projeção desse futuro possível", explica Quitéria.
A matéria-prima intelectual da peça são as obras do sociólogo potiguar Jessé Souza, especialmente "A Classe Média no Espelho" e "A Elite do Atraso". Souza, que é natural de Natal como o grupo, dedicou sua carreira a desmontar o mito de que a classe média brasileira seria uma espécie de "categoria universal" — e a mostrar como ela se constituiu, historicamente, como "sargento da oligarquia", para usar sua expressão. No palco, essa camada social aparece encarnada em personagens majoritariamente femininas. A mãe solo cria os filhos dentro do condomínio blindado enquanto sustenta o discurso progressista e a prática conservadora, equilibrando autonomia e sobrecarga. Ao seu redor, outras mulheres ampliam o conflito: Maria, a inteligência artificial doméstica, e uma ativista do movimento revolucionário disputam o espaço privado e o público.
"O protagonismo feminino é uma larga tradição na modernidade. Por que não imaginar que a próxima revolução deste século XXI comece e seja liderada por mulheres?", provoca a diretora, que nos últimos anos também consolidou uma carreira na TV Globo, com passagens por novelas como "Renascer" e "Mar do Sertão".
O nome deste condomínio tão brasileiro remete à terra prometida bíblica. "No Brasil de hoje, é muito forte a instrumentalização política do discurso evangélico e é justamente a partir da religião que a ideologia dominante opera no imaginário", afirma Quitéria. Fé, consumo e medo se entrelaçam na manutenção de privilégios. O condomínio perfeito, como ela observa, "é frágil — existe sempre uma sensação de vazio e instabilidade". A encenação abraça a artificialidade. O cenário minimalista e modular constrói uma atmosfera clean, asséptica, "como um feed de rede social cuidadosamente editado", descreve a diretora. Os corpos em cena reproduzem gestos automatizados, poses ensaiadas de felicidade, dinâmicas coreografadas de convivência. Tudo parece calculado — até o riso.
Projeções mapeadas ampliam a sensação de gamificação das relações: números, likes, rankings, barras de progresso, desafios e recompensas.
O humor sempre foi uma ferramenta cênica do Carmin. Mas quem espera a comicidade mais despretensiosa de trabalhos anteriores é surpreendido com um conteúdo político mais explícito. Quando a peça foi retomada em 2024, depois de um hiato provocado pela pandemia, o grupo percebeu que, apesar da mudança de governo, as questões seguiam no lugar.
Criado em Natal em 2007, o Grupo Carmin acumula apresentações em 23 estados brasileiros e também em palcos no exterior (Portugal e França).
"Jacy" (2013) foi eleito um dos 10 melhores espetáculos de 2015. "A Invenção do Nordeste" (2017) levou os prêmios Shell (Melhor Dramaturgia), Cesgranrio (Melhor Espetáculo), APTR e Prêmio do Humor em 2019.
SERVIÇO
GENTE DE CLASSE
Teatro Firjan Sesi Centro (Av. Graça Aranha, 1 - Centro)
De 23/7 a 23/8, quinta e sexta (19h), sábado e domingo (17h)
Ingressos: R$ 40 e R$ 20 (meia)