Invisibilidade social
Um dos melhores representantes do teatro de pesquisa carioca, a companhia Amok reverbera sólida trajetória artística, debruçando-se sobre o trabalho do ator e linguagens da cena, mantendo sede própria em Botafogo. Desde 1998 fulguram no repertório obras como o ótimo "Cartas de Rodez", "O Carrasco", "Macbeth" e muitos outros como "Furacão", acumulando os mais renomados prêmios do país, realizando turnês nacionais e internacionais.
Com dramaturgia e direção do duo criador Ana Teixeira e Stephane Brodt, o público é presenteado e convidado a refletir sobre as agruras que perpassam o sistema prisional feminino no potente "Incondicionais". A narrativa, sob caráter documental, é inspirada nos livros: "Cadeia - Relatos sobre mulheres, de Debora Diniz, "Prisioneiras", de Dráuzio Varella, "Presos que Menstruam", de Nana Queiroz e "Prisioneiras - Vida e violência atrás das grades", de Bárbara Musumeci Soares e Iara Ilgenfritz.
Espelhando-se numa realidade nua e crua, o texto, que também foi alicerçado a partir de artigos, depoimentos, entrevistas, alça voos dramatúrgicos através do macrocosmo violento que expõe o regime carcerário e suas peculiaridades aterrorizantes. Ao estimular a reflexão, com sensibilidade, a escrita oportuna desvela situações-limite, pelas quais a justiça possa vir a encontrar probabilidades mais humanitárias, a fim de minimizar o suplício daquelas mulheres tão invisibilizadas, antes mesmo da condenação judicial.
A direção legitima toda a investigação, implantando uma rigidez que fortalece a temática. A dupla liderança conduz seu elenco com extrema eficiência, extraindo os meandros daquele universo execrável. Edifica um espetáculo desenhado, cujas mudanças de cena metaforizam regras imutáveis, como se leis não pudessem ser revogadas, teatralizando a encenação, como sempre.
As atrizes unificam-se instaurando todo o clima necessário, humanizando suas personagens. Há uma embocadura que exalta a dramaticidade e todas articulam no mesmo diapasão, supostamente sugerido pelos diretores. Dai Ramos constrói a dureza de sua Rayane com segurança e multiplica-se como dona Debora com versatilidade. Sirlea Aleixo emprega alívio cômico em sua Ivanilde e costura veracidade na doutora Silvia. Luciana Lopes emociona no discurso inflamado de sua Lorena, uma mãe agonizante. Taty Aleixo impõe-se com tranquilidade nos seus respectivos papéis, além de cantar lindamente, e Thay Aleixo cumpre com firmeza o que lhe é concedido. A cena no refeitório configura ótimo jogo.
O cenário de Ana Teixeira e os figurinos de Stephane Brodt são simples e adequados, auxiliando a imagem daquele ambiente hostil. A iluminação de Renato Machado é gelada, com poucas variações, ressaltando a frialdade humana.
"Incondicionais" funciona como denúncia, para que instâncias superiores do Judiciário possam estar atentas a mudanças, na consciência de que no cárcere habita seres humanos.
SERVIÇO
INCONDICIONAIS
Teatro Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
Até 19/7, às quintas e sextas (20h), sábados e domingos (18h)
Ingressos: R$ 30, R$ 27 (convênios), R$ 21 (sócio Sesc) e R$ 15 (meia)