Maurício Manfrini: 'Contar uma história engraçada, dar risada, tá ficando meio proibido'

Por Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Maurício Manfrini, o Paulinho Gogó

Nem a hipótese de a Argentina ganhar a Copa do Mundo (de novo... na cola da vitória de 2022), neste domingo, vai abalar a gargalhada de quem passar pelo Teatro Bangu Shopping, neste sábado, às 19h, para conferir Maurício Pereira Ribeiro Manfrini fazer da vida a maior diversão. Na pele de Paulinho Gogó, ele faz o mau humor cantar pra subir.

Aos 56 anos, esse rapsodo com origens na Baixada Fluminense testou nas ondas curtas da Tupi as peripécias picarescas de seu Zé Pelintra de bordões inesquecíveis. Foi para o liceu do Professor Raimundo em 2001 e, na sequência, caiu no banco da "Praça É Nossa", onde edificou sua popularidade, depois aprovada pela cinefilia nacional. Manfrini tem filme a rodo para lançar este ano.

No papo a seguir, a gente fica sabendo as boas dele e de seu adorável malandro.

Onde é que o Maurício e o Gogó se misturam?

Maurício Manfrini - Os dois são meio que extremos. A única pouca semelhança é o bom humor. Apesar de eu, Mauricio Manfrini, ser uma pessoa tímida, sou muito bem-humorado também. Eu acho que é esse bom humor que se mistura com o personagem do Paulinho.

O Brasil é engraçado? O que mais te faz rir com o que somos como nação e do que somos?

Ah, o Brasil é muito engraçado. O povo brasileiro é muito bem humorado, geralmente. Mas o que me faz rir bastante no Brasil, inegavelmente, são os políticos. Temos políticos muito engraçados, né? É meio clichê isso, mas não tem como fugir, pois eles são até grandes concorrentes da classe humorística, né? E isso atrapalha bastante o Brasil como nação. Apesar das dificuldades, somos uma nação legal, que poderia estar muito mais longe do que está. Tem muito para caminhar ainda... e vai demorar um pouquinho, mas eu acho que a gente vai conseguir. Eu sempre torço para o melhor.

Teu humor pertence ao da tradição dos rapsodos, dos contadores de causo. Você é como o Pantaleão. Onde é que busca essas histórias que divertem o Brasil todo?

O meu tipo de humor veio do rádio. Eu trabalhei 21 anos na Super Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, no programa "Patrulha da Cidade". É um programa policial humorístico, ao vivo de um grande sucesso. O rádio te ensina muito a elaborar as histórias, a burilá-las. Depois, com o tempo, trabalhando na "Escolinha do Professor Raimundo", em 2001, com grandes feras do humor, como Rogério Cardoso, Francisco Milani, Dicró, Pedro Bismarck, Fafy Siqueira, Lúcio Mauro... e o próprio Chico Anysio... eu, naturalmente, fui aprendendo a desenvolver as histórias, a desenvolver os causos... ou, como diz o Paulinho Gogó... os fatos venéreos. Isso foi me deixando cada vez mais apurado para poder perceber nas pessoas onde poderiam sair boas histórias. Eu ouço muito. As pessoas chegam até mim para me contar coisas. "Ó, aconteceu isso na minha família... aconteceu isso com meu primo... aconteceu com minha esposa... aconteceu com meu pai". Eu sempre ouço, vou captando, vou absorvendo e acabo transformando os relatos em histórias. E tem também as piadas clássicas, que eu vou humanizando.

Você já viveu, no palco, algum "fato venéreo" digno das tuas histórias?

Eu estava no Teatro Bibi Ferreira, se eu não me engano, em 2010, em São Paulo. Eu fazia show lá toda quinta-feira, no horário de onze da noite. E aí, um dia, eu cheguei do Rio, e o meu produtor falou que tinha acontecido um problema muito sério. Estava tendo um espetáculo antes, "Aurora da Minha Vida", que era das nove às onze e meia. Eu entrava na sequência. Naquela ocasião, quando o meu show ia começar, meu produtor falou que uma senhora passou mal na rua. A família veio socorrer, tentou levar para o hospital, mas, como ela não estava aguentando, pediram ajuda a um carro de polícia, que ficava em frente ao Bibi Ferreira. Colocaram essa senhora para dentro do teatro e, ali, ela não suportou. Estava infartando, pelo que me parece, e veio a falecer. Não há nada de engraçado nisso, mas tem uma situação diferente nessa história. Eu não queria fazer o show, mas o público já tinha entrado. Os parentes, dizendo que a mulher era minha fã, não queriam impedir que a apresentação acontecesse e pediram que eu seguisse e fizesse o show. Acabou que eles ficaram velando a senhora num canto do teatro e eu fiquei no palco. Ninguém na plateia estava vendo aquela situação, mas eu sabia. A família pediu pra eu fazer o show... e eu fiz.

O Brasil precisa do teu humor e te devolve essa necessidade com muita fidelidade ao teu trabalho. Mas como regar essa relação com o público? Como manter o frescor?

O Brasil não precisa somente do meu humor, precisa do humor de todos os humoristas. O Brasil precisa rir mais, as pessoas precisam se divertir mais. As pessoas precisam dar gargalhadas, porque faz muito bem. Hoje em dia, parece que somente se pode fazer a pessoa chorar. O Rodrigo Marques, humorista maravilhoso de quem sou muito fã, tem um texto sobre isso, sobre essa coisa de que hoje só é permitido fazer chorar, contar doença triste. Só se fala de doença, de traição, tragédia. Agora, contar uma história engraçada, dar risada, isso tá ficando meio que vigiado, meio proibido. O riso acalma o espírito, a alma. Eu sempre busquei fazer as pessoas se divertirem, desde a época do rádio. Quem gosta do Paulinho Gogó, gosta do jeito que ele é, e nunca me foi pedido que mudasse algo. Eu apenas retribuo o carinho do público. Para manter o frescor, sempre tento levar linguajar novo para o personagem, trazendo umas analogias diferentes, umas histórias que acho que vão agradar o público.

O que você tem de filme pela frente este ano?

O cinema agregou muito a minha vida profissional, primeiro com "Os Farofeiros", que fiz sob a direção do Roberto Santucci, com um elenco sensacional. Fizemos o dois e vem agora "Os Farofeiros 3", que a gente filmou no Caribe. Agora em novembro, eu tenho "Picaretas Não Vão Pro Céu", que é um filme que eu fiz com o Tirullipa, na qual nós somos dois bandidos pé-rapados. Eu finjo ser padre e ele, coroinha. Tenho ainda "Marido de Aluguel", "Mentira Tem Perna Curta" e "Missão 171", em que eu faço o Tony Cruz, numa brincadeira com Tom Cruise.

SERVIÇO

SÓ E BEM ACOMPANHADO

Teatro Bangu Shopping

18/7, às 19h

Ingressos a partir de R$ 45