A pré-história da máquina de 'moer' gente
Montagem de 'O Beijo no Asfalto' mostra que as fake news não são novidade e já podiam arruinar a vida de alguém há décadas
À beira da morte, um homem atropelado pede um beijo a um desconhecido. Sessenta e cinco anos depois, esse gesto de compaixão continua sendo capaz de destruir uma vida — não porque a história mudou, mas porque a realidade não pára de repeti-la. "O Beijo no Asfalto", obra-prima de Nelson Rodrigues, volta aos palcos em montagem que deixa claro que que uma dramaturgia escrita em 1960 encomendada para explicar 2026.
A nova produção, dirigida por Marco André Nunes e com elenco liderado por Eduardo Sterblitch, Luísa Arraes e Edson Celulari, chega ao Teatro Glaucio Gill em um momento em que a discussão sobre manipulação de narrativas, julgamento público e destruição de reputações há muito não é ficção — virou rotina. A peça não precisou ser atualizada. É como se o texto de Nelson apenas estivesse esperando para ser alcançado pelo tempo.
Escrita para Fernanda Montenegro no Teatro dos Sete, a obra conta a história de Arandir, um homem comum que comete um ato de humanidade e vê sua vida desmoronar quando a imprensa sensacionalista e a polícia transformam o beijo dado no atropelado num escândalo. O beijo de despedida naquele estranho faz eclodir uma espiral de acusações, suspeitas, condenações — tudo sem que ninguém saiba realmente o que aconteceu. A máquina de destruição de reputações funciona sozinha, alimentada por boatos, interesses e a necessidade coletiva de ter um culpado.
Quando a peça estreou em 1961, causou indignação. Críticos e público se dividiram. Alguns a viram como uma afronta moral; outros, como um retrato contundente da sociedade brasileira. A única coisa mudar é que aquilo que o sensacionalismo apresentado pelo dramaturgo acontece hoje em tempo real nas redes sociais. O repórter que distorce a verdade virou algoritmo. O linchamento moral virou trending topic. A velocidade aumentou, mas o mecanismo perverso que arruina reputações é exatamente o mesmo.
A montagem de Marco André Nunes não moderniza o texto, deixa a peça falar por si. Com Sterblitch no papel de Arandir, Arraes como Selminha e Celulari como Aprígio — o pai de Selminha, figura central dos ressentimentos e desejos reprimidos que alimentam a tragédia —, a encenação aposta na força do elenco e do texto para colocar o espectador diante do questionamento do quão uma mentira repetida consegue destruir uma vida? "É a primeira vez em que atuo numa peça do Nelson Rodrigues. É um dramaturgo que adoro e sempre tive vontade de levar à cena uma de suas peças. É um desejo antigo sendo realizado", comentou Celulari em entrevista ao portal NewMag.
O elenco completa-se com Nina Tomsic, André Mattos, Ernani Moraes, Vinícius Teixeira, Pedro França, Laura de Castro, Fernanda Dias, Alcides Peixe, Danilo Canindé e Quiga Camarate.
SERVIÇO
O BEIJO NO ASFALTO
Teatro Glaucio Gill (Praça Cardeal Arcoverde, s/nº - Copacabana)
De 16/7 a 3/8, de quinta a segunda-feira (20h)
Ingressos: R$ 20 e R$ 10 (meia)