Muito além de Oz: Wicked desembarca no Rio

Elenco e direção contam ao Correio da Manhã como Wicked transformou suas vidas e explicam por que o espetáculo segue atual ao discutir amizade, preconceito e poder

Por Rafael Lima e Deborah Gama

Elenco reunido com a imprensa na Cidade das Artes

Poucos espetáculos conseguem atravessar décadas mantendo a mesma força. Menos ainda conseguem ganhar novos significados conforme o mundo muda. É justamente essa capacidade que acompanha Wicked desde sua estreia internacional e que agora desembarca, pela primeira vez, no Rio de Janeiro, depois de três temporadas de sucesso em São Paulo e de reunir mais de um milhão de espectadores no Brasil. A produção estreia nesta quarta-feira, dia 15, na Cidade das Artes Bibi Ferreira, trazendo ao palco uma história que ultrapassa a fantasia de Oz para discutir amizade, preconceito, poder, identidade e a coragem de fazer escolhas.

Inspirado no romance de Gregory Maguire, o espetáculo revisita o universo criado por L. Frank Baum para contar o que aconteceu antes da chegada de Dorothy a Oz. No centro da narrativa estão Elphaba e Glinda, duas jovens completamente diferentes que constroem uma amizade improvável enquanto descobrem que o mundo costuma ser muito mais complexo do que as versões oficiais da história.

Marcelo Perillier - Superprodução entra em cartaz no Rio, nesta quarta-feira

Mas se o cenário é fantástico, o impacto é profundamente humano. Essa é a percepção compartilhada por quem vive diariamente o espetáculo.

Para Myra Ruiz, que interpreta Elphaba desde a primeira montagem brasileira, a principal herança de Wicked vai muito além dos palcos. A atriz afirma que aprendeu que sustentar aquilo em que se acredita tem consequências, mas também representa o único caminho possível para permanecer fiel a si mesma.

"A gente acredita no que acredita e vai atrás disso. Isso oferece consequências, oferece um preço, mas é preciso ter força. Wicked me inspira a bancar quem eu sou e as ideias que eu tenho sobre a vida e sobre o mundo", afirmou ao Correio da Manhã.

A reflexão encontra eco na trajetória de Fabi Bang. Intérprete de Glinda, ela descreve a relação com o musical como algo inseparável da própria vida. Segundo a atriz, os anos dedicados à produção moldaram sua formação artística e pessoal. "O Wicked é a minha faculdade de vida. É o que me formou como mulher, como atriz, como atriz empreendedora", resume.

Para ela, entretanto, o verdadeiro alcance da obra acontece do outro lado do palco. "É um espetáculo extremamente reflexivo porque mexe em feridas muito profundas, como rejeição, preconceito, domínio abusivo político e também fala da força da amizade feminina. Ele transforma não só quem está no palco, mas principalmente quem está na plateia."

Mais que fantasia

A dimensão política da obra também é apontada pelo ator Hipólyto, responsável por interpretar o príncipe Fiyero. Carioca, nascido em Nova Iguaçu, ele acredita que a força de Wicked está justamente na forma como temas sensíveis aparecem sem perder a delicadeza da narrativa.

"Eu acho que a história de Wicked é muito política, ainda que não seja tão explícita. Pelo tema que é abordado, ela já me tocou muito no emocional desde a primeira leitura, desde a primeira vez que eu entendi o que essa história representava."

Para o ator, a estreia carioca também carrega um significado pessoal. Depois de construir a carreira fora do estado, voltar para apresentar o espetáculo na cidade onde nasceu representa uma espécie de reencontro. "Estou maravilhado. É como fazer em casa, para pessoas que estudaram comigo, que já trabalharam comigo. Essa é minha terceira vez na Cidade das Artes e é um lugar que sempre me faz revisitar essa emoção profissional."

Marcelo Perillier - Elenco principal da montagem brasileira do musical participa de coletiva

O sentimento de retorno também acompanha o diretor e coreógrafo Ronny Dutra. Nascido em Nilópolis, criado entre São Paulo e Brasília e radicado há quinze anos em Nova York, ele vê a temporada carioca como um reencontro com suas próprias origens.

"Tem algo muito especial em poder estar de volta à minha terra. O Rio tem uma magia de arte muito especial e incandescente. Tem alguma coisa sobre o sangue no olho, o vigor do público carioca, do talento carioca. É contagiante."

Uma história que continua necessária

Mesmo depois de dirigir inúmeras apresentações, Ronny afirma que ainda assiste ao espetáculo como espectador. "Eu continuo me emocionando. Continuo voltando para a história como fã. Um dos grandes triunfos do Wicked no mundo é justamente o fã. Eu comecei como fã de teatro musical, fã de contar histórias."

Para ele, contar histórias é uma necessidade humana que atravessa gerações e explica a permanência de grandes obras. "A gente conta histórias desde a criação do universo. Contava com desenhos na pedra, com dança, com o corpo, com a comida. Contar histórias sempre foi uma forma de celebrar a nossa passagem por essa terra."

Essa perspectiva também serve para lembrar ao elenco que nenhuma montagem pertence apenas aos artistas que a realizam. "Eu digo para todo mundo que o musical é muito maior do que todos nós. A gente vai passar e o musical vai continuar existindo."

Na visão do diretor, talvez seja justamente agora que Wicked alcance uma de suas fases mais importantes. Ele lembra que a obra nasceu inspirada por discussões políticas e sociais presentes tanto no romance de Gregory Maguire quanto no universo criado por L. Frank Baum e considera que esses temas permanecem atuais.

"Talvez o Wicked seja mais importante agora do que quando estreou. A gente avança mais de um século e continua falando sobre as mesmas questões, com o mesmo impacto político e a mesma relevância cultural."

Ao chegar finalmente ao Rio de Janeiro, depois de anos sendo aguardado pelo público carioca, o espetáculo carrega toda a estrutura tecnológica que marcou suas temporadas paulistas, com efeitos de ilusionismo, sistemas de voo e projeções desenvolvidas especialmente para a produção brasileira.

Mas, curiosamente, nenhum desses recursos parece ser apontado pelo elenco como sua principal força. 

Nas conversas com o Correio da Manhã, todos voltam ao mesmo ponto. Seja falando sobre coragem, amizade, preconceito, identidade, política ou pertencimento, as respostas acabam convergindo para uma ideia simples: por trás das bruxas, da Cidade das Esmeraldas e da fantasia de Oz, Wicked continua emocionando porque fala, acima de tudo, sobre pessoas.