Abismos geracionais
Destaque no Festival de Curitiba, espetáculo mineiro 'Doce Árido' leva ao palco a fragilidade das relações familiares no interior
Quando uma encomenda inesperada, vinda do exterior, surge como a chance de transformar a vida, três mulheres mergulham em uma rotina exaustiva de trabalho. Mas o maior obstáculo não é o tempo — é o silêncio que guardaram por gerações. "Doce Árido", que estreia esta semana no Teatro Ipanema Rubens Corrêa, traz essa tensão para o palco através de Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini, que vivem mãe, filha e avó responsáveis pela produção artesanal de doce de leite em uma pequena roça do interior de Minas Gerais.
Com texto e direção de Tairone Vale, o espetáculo acompanha Maria Antônia (Pri Helena), que exige dedicação total à encomenda; Maria Lúcia (Rebeca Figueiredo), dividida entre o tacho de doce e os cuidados com a recém-nascida Maria Clara; e Maria Quitéria (Layla Paganini), a matriarca que observa tudo pelas frestas e sabe que a fragilidade dessas relações pode colocar tudo a perder. Entre as consequências de um parto complicado e a escassez que ronda a casa, mãe, filha e avó se equilibram entre o peso da tradição e o desejo de liberdade.
A montagem trabalha com uma plataforma móvel que espelha a instabilidade das relações familiares: à medida que a trama avança, o cenário tomba com o deslocamento das atrizes. A trilha sonora original, composta por Laura Jannuzzi, evoca imagens e sensações que sublinham a aridez do ambiente. O trabalho foi apresentado pela primeira vez em 2025, em Juiz de Fora, e este ano integrou a programação do Festival de Curitiba.
Vale resgatou memórias da infância e os afetos construídos pelas matriarcas de sua família para criar essa história de ficção. "Um dos motivadores para esse trabalho foi pensar no que aconteceria se uma mulher tivesse depressão pós-parto em um cenário isolado, rural, sem estrutura e recursos", explica o diretor.
A dramaturgia alinha-se a estatísticas oficiais alarmantaes: segundo o Censo 2022 do IBGE, 49,1% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, que dedicam quase dez horas semanais a mais que os homens ao trabalho doméstico e de cuidado. Cerca de três em cada dez brasileiras já sofreram violência doméstica, com altos índices de estupro e feminicídio — realidade ainda mais grave entre mulheres rurais, que enfrentam menor acesso a serviços de saúde e proteção, mobilidade restrita e isolamento.
SERVIÇO
DOCE ÁRIDO
Teatro Ipanema Rubens Corrêa (Rua Prudente de Morais, 824)
De 16/7 a 9/8, de quinta a sábado (20h) e domingos (19h) | Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)