Múltiplas verdades na sala de aula
Teatro e educação se encontram em 'Margaridas', que chega ao Sesc Copacabana
Cinco mulheres entram em uma sala de aula. Cada uma acredita ser a única professora ali — as outras quatro, portanto, devem ser alunas. O conflito que nasce dessa confusão é o ponto de partida de "Margaridas", espetáculo que estreia nesta quinta-feira (9) no Sesc Copacabana. A dramaturgia de Cecília Ripoll propõe uma reflexão incômoda sobre educação, escuta e as fraturas que atravessam a profissão docente nos dias de hoje.
A peça nasceu de uma conversa entre amigas. Ana Achcar, professora há mais de 30 anos na Uni-Rio, idealizou o projeto ao lado de Cecília Ripoll e da diretora Natasha Corbelino. O que começou como um desejo de estar em cena com pessoas que marcaram sua trajetória — muitos de seus alunos viraram artistas e colegas — ganhou corpo e se transformou em algo maior: uma investigação sobre o que significa ensinar em 2026.
"Dou aula há mais de 30 anos, e muitos dos meus alunos se tornaram amigos ou artistas com os quais trabalhei depois. Neste projeto, quis estar em cena com essas pessoas que tiveram um papel tão importante na minha vida", descreve Achcar. No elenco estão Bel Flaksman, Dani Barros, Graciana Valladares e Mariana Consoli — todas com trajetórias que transitam entre a sala de aula e os palcos.
Cecília conta que o texto nasceu das conversas iniciais com a equipe. "O que mais me chamou atenção foi a fluidez constante com que nossos relatos transitavam entre a posição de professora e aluna", conta a autora. Essa observação virou o núcleo da trama: e se a confusão entre esses dois papéis fosse absoluta? A partir daí, a peça se desdobra em humor, conflito e, principalmente, em perguntas sem respostas fáceis.
No dia anterior ao encontro das cinco, todas passaram por uma experiência de violência relacionada a um pai de aluno. Esse trauma compartilhado funciona como pano de fundo para a reflexão que o espetáculo propõe. A montagem faz um passeio por 200 anos de educação — de 1916 a um futuro imaginado em 2116.
"Cinco atrizes professoras revelam seus múltiplos modos de olhar a educação. A peça nos faz rir das diferenças entre essas mulheres, mas também nos convida a refletir sobre algo muito atual e urgente: nossa dificuldade de ouvir quem pensa diferente de nós", destaca Natasha Corbelino, acrescentando que a montagem fala sobre a necessidade de construir pontes entre tempos, ideias e pessoas.
SERVIÇO
MARGARIDAS
Sesc Copacabana — Espaço Multiuso (rua Domingos Ferreira, 160)
De 9/7 a 2/8, quintas e sextas (19h) | sábados e domingos (17h)
Ingressos: R$ 40, R$ 28 (sócio Sesc) e R$ 20 (meia)